Um ser inquieto, um caçador de um tesouro perdido, um pesquisador por natureza. Em qualquer parte do mundo, os colecionadores adotam atitudes iguais: são capazes de grandes façanhas para adquirirem uma nova peça, a próxima de sua coleção. Qualquer esforço é válido para ir em busca do "tesouro perdido".

Para os psicólogos, as coleções são sinônimo de farto material de pesquisa que ajudam a compôr o perfil do colecionador. Apesar de não ser fácil determinar as características de um colecionador, algumas atitudes determinam o seu perfil: busca incessante de um objeto, ansiedade e ciúme em relação a sua coleção. Alguns colecionadores preferem expôr a sua coleção, outros preferem guardá-lá debaixo de sete chaves.

Existem dois tipos de colecionadores: o temático e o sazonal. O puramente temático colecionará sempre os mesmos objetos, dentro do mesmo assunto. Já o sazonal se interessará por temas cujo interesse varia de época para época. Por exemplo, em dezembro, ele pode colecionar objetos relacionados ao tema Natal.

Muitas vezes, as pessoas escolhem um determinado tema até por necessidade. Você já imaginou se o colecionador optasse pelo tema "década de 20"? A infinidade de assuntos tomaria praticamente impossível completar esta coleção. De qualquer forma, podemos afirmar que, sem sombra de dúvida, colecionar é um ato emocional.

O surgimento do colecionismo

Como começaram esses movimentos de hobby, e até profissão, que movimentam milhares de pessoas em todo o mundo? Não há um consenso em relação à época exata do surgimento do colecionismo.

Na verdade, o homem é um colecionador por natureza: o ato de colecionar o acompanha desde a Pré-História. Nessa época, o homem acumulava objetos. Logicamente, não da forma tão organizada e muitas vezes catalogada, como hoje.

O homem pré-histórico, motivado por razões que vão além da simples sobrevivência, acumulava repetidos artefatos. Os arqueólogos preferem relacionar o hábito de guardar objetos ao instinto de sobrevivência e não entrar no campo da pesquisa do colecionismo.

Entre as diferentes escolas que estudam o colecionismo, há divergência em relação aos motivos que teriam levado esses homens a guardar determinados objetos em série, em locais diferentes de sua "oficina" de trabalho. Júlio Cesar, por exemplo, era um colecionador de objetos gregos. Após a conquista sobre a Grécia, a arte grega passou a fasciná-lo ainda mais.

A Escola Americana reconhece nesse hábito do homem pré-histórico uma forma primitiva de colecionismo. Já a Escola Francesa prefere citar como marco do colecionismo a Idade Média, época em que as coleções de armas e de relíquias sagradas eram famosas.

Pesquisas feitas na Universidade de Pensilvânia, em Filadélfia (EUA), determinam que o início do colecionismo é atemporal, já que é um hábito que acompanha a humanidade desde os primórdios de sua existência, passando a ter uma data a partir do momento em que padrões profissionais foram estabelecidos e que separaram definitivamente o colecionador do "ajuntador".

Fã clube: o lar do colecionado

Fã-clubes e coleção se relacionam de uma forma direta e dirigida. O fã de uma celebridade coleciona itens de seu ídolo; o fã clube, por sua vez, age como um catalisador desses itens de coleção.

Muitas pensam em um grupo de adolescentes gritando histericamente pelo seu ídolo quando pensam na palavra fã-clube. Hoje, os fãs-clubes na Europa e nos Estados Unidos tomaram-se verdadeiras empresas.

Um exemplo é a série de ficção Star Trek. Hoje, existem diversos fãs-clubes em torno do assunto e algumas empresas possuem até ações em Wall Street.

Algumas celebridades, em parceria com seus patrocinadores, abrem grandes empresas para melhor servir aos fãs e aos colecionadores.

No caso do colecionismo clássico, o relacionado a objetos da numismática (moedas), filatelia (selos), notafilia (cédulas), telecartofilia (cartões telefônicos), dentre outros, os colecionadores se organizam em Associações ou clubes de colecionadores para interagirem com outros colecionadores e movimentarem suas coleções com as compras, vendas e trocas de itens.

Colecionar é manter a história viva

O limite entre guardar e colecionar é tênue e difere basicamente na forma com que os itens são guardados e mantidos pela pessoa.

Antes da 11 Guerra Mundial, muitos museólogos julgavam mal os colecionadores, rotulando-os de "destruidores da história". Com o passar do tempo, o colecionador começou a ser visto como alguém que poderia colaborar a preservar objetos que fizeram parte da nossa história.

Alguém que paga US$ 100 mil por um pôster, US$ 500 por um cartão postal ou US$ 3 mil por um livro raro evidentemente vai preservar o que adquiriu.

Muitas vezes, o colecionador tem mais recursos, paixão, conhecimento e meios de negociação do que uma instituição ou museu.

O Brasil ainda está bastante atrasado em relação ao colecionismo. Para se ter uma ideia, a primeira revista dedicada ao tema no País surgiu após 32 anos de seu lançamento na Europa e após 25 anos nos Estados Unidos. Na América Latina, a tradição de revistas e jornais voltados ao colecionismo existe há mais de 50 anos.

Colecionismo e as crianças

Colecionar não pode ser interpretado somente como uma atividade de adultos ou uma forma de investimento a longo prazo. As crianças também precisam ser incentivadas ao colecionismo.

Já é comprovado que o ato de colecionar pode desenvolver nas crianças traços de personalidade que as ajudarão no futuro como, por exemplo, a organização, capacidade investigativa, desenvoltura social, facilidade em lidar com situações novas, capacidade de manter conversação e exposição de assuntos, lidar melhor com críticas, saber elogiar o próximo, melhoria das técnicas de negociação, além de toda um leque de conhecimentos e cultura geral que a criança absorve durante o ato de colecionar.

Incentivar o filho ao colecionismo pode auxiliar no seu desenvolvimento social, intelectual e psicológico.

O futuro do colecionismo no Brasil

Somos um país jovem, com carências culturais acentuadas e valores de preservação distorcidos. Não temos o costume de cultuar e preservar o passado.

Mas, da década de 80 para cá, o Brasil vem evoluindo naturalmente e reconhecendo que o colecionador desempenha um papel tão importante na preservação da história do País quanto os museus, centros culturais e instituições de preservação.

Existem algumas escolas no Brasil, o Colégio Mackenzie de Brasília por exemplo, já incluíram a filatelia como matéria, o que representa um grande passo.

Nos Estados Unidos, o colecionismo é tema discutido em várias escolas e universidades. Lá, cada Estado tem o seu clube de colecionadores e para fins de comparação, só clubes numismáticos filiados a ANA (Associação Numismática Americana), são 345.

O colecionismo no Brasil está evoluindo. Temas mais tradicionais de coleção como selo, arte e moeda já estão bem desenvolvidos no País, há museus, clubes, revistas, jornais, associações, sites especializados, comunidades na internet, grupos no Whatsapp e livros que tratam dessas coleções.

Um exemplo da evolução do colecionismo no Brasil é o espaço que as antiguidades gráficas estão ganhando, com coleções de cartão postal, documentos, fotos, posteres, rótulos etc.

As antiguidades gráficas eram menos consideradas quando comparadas às coleções de pinturas valiosas ou esculturas raras. Hoje, com as facilidades de viagens ao exterior, é comum encontrarmos em lojas de antiquários ou em feiras de antiguidades artigos relacionados com papel.

Outro exemplo dessa evolução é a participação cada vez mais crescente da mulher colecionadora. O ato de colecionar historicamente sempre foi masculino.

A mulher não foi educada para "caçar" nem para competir, mas ela vem quebrando tabus e entrando com força nesse campo, antes estritamente masculino. Para se ter um exemplo, de janeiro de 2018 até a publicação desse artigo, 32,70% das pessoas que visitarem o blog do Collectgram foram mulheres.

É difícil prever o futuro do colecionismo no Brasil, que segue os modelos norte-americano e europeu, mas pelos recentes esforços de união dos colecionadores e principalmente por algumas entidades como a Casa da Moeda, Correios do Brasil, Banco Central do Brasil e Museus privados e públicos enxergarem o colecionismo como algo importante para o Brasil, podemos ver indícios de que teremos um boom de colecionismo em nosso país, com o estabelecimento de um modelo de colecionismo único no mundo.

Apesar disso, itens que antes não eram colecionados, como posteres de cinema, postais, revistas, etc. podem começar a atingir cotações significativas no mercado.

Outros podem voltar a tona, como é o caso da telecartofilia que é a coleção de cartões de telefone públicos. Ela teve uma alta demanda há alguns anos atrás, com alguns cartões chegando a valer 2 mil dólares na época, mas saturou-se e ficou em baixa por um tempo, mas nada impede de ela começar a ter novamente seu lugar de destaque no cenário de colecionismo.

Plataformas de colecionadores como o Colectgram, Moedas do Brasil, Blog da Diniz Numismática, Numismática Castro, AFNB, além das entidades ligadas ao Colecionismo como a Sociedade Brasileira de Numismática, a Associação Filatélica e Numismática de Brasília, a Sociedade Numismática Paranaense dentre outras que você pode conhecer aqui, tem contribuído para o crescimento do colecionismo no Brasil.

Do jeito que o colecionismo cresce no Brasil, não será difícil alcançar em breve a posição de alguns países em termos de desenvolvimento desse hábito.

Mas é bom deixar claro que colecionar não é sair ajuntando um monte de coisas e largar em um canto até que o tempo as destrua, colecionar é, antes de mais nada, preservar a história, é um ato profissional e sério que deve ser tratado como tal.

Fonte:
Texto originalmente publicado por Renata Lima em 11/05/2002, adaptado por Plínio Pierry em 26/10/2018.