A prioridade da invenção da moeda suscitou sempre dúvidas e acaloradas polêmicas entre os numismatas.

Ateneu e Macróbio atribuem a invenção a Juno, outros a Saturno; Heródoto e Xenófanes, aos lídios; Eliano, aos eginéticos; Lucano, a Itonus, antigo rei da Tessália; Suidas, a Numa Pompílio; Plínio, tanto a Numa Pompílio, como a Sérvio Túlio.

Não ficam por aí as opiniões de outros historiadores e letrados, que apontam ainda outros povos e monarcas como os criadores das primeiras moedas.

Se recorrermos à Bíblia encontraremos uma referência antiga ao dinheiro, quando ela nos cita o fato dos judeus recuperarem a liberdade de Ciro, cinco séculos antes de Cristo.

Plutarco atribui esta invenção ao grego Teseu, que viveu mais ou menos em 1.235 antes de Cristo.

Se quisermos aceitar o que nos diz o livro de Gêneses, veremos que antes daquela época, Abraão comprara a sepultura de sua mulher Sara, por 400 siclos de prata.

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Muitos atribuem a Noé, outros a Nino e no seu Dicionário Bíblico, Calmet afirma que a moeda mais antiga de que se tem notícia, é o siclo de prata, vinda dos tempos de Davi ou de Salomão.

Nos poemas de Homero não se fazem referências a moeda.

Outros apontam Caim, devido a sua requintada avareza, invejoso da predileção que seu irmão Abel havia dos progenitores. Teria sido ele quem primeiro estabelecera a distinção de haveres e fixara a diversidade de domínios; o primeiro que inaugurara o apartamento de possessões e o princípio do "Meu" e do "Teu".

Há os que apontam a China como sendo o país onde se gravaram as mais antigas moedas de metal. A princípio, o objetivo era apenas ter uma cópia de qualquer objeto em escala menor, a fim de manifestar a fé que o povo depositava na sua religião.

Mais tarde esses primeiros esboços do dinheiro passaram a ser feitos de tal modo, que se assemelhassem com os objetos em troca dos quais deviam ser entregues.

Formas de corpo humano para aquisição de roupas; pás ou enxadas minúsculas para simbolizar instrumentos de agricultura e espadas para compra de material de guerra e cortante.

A evolução continuou e as moedas com a forma de facas deixaram de ter o gume, ficando apenas com o cabo e mais tarde somente parte do cabo.

Conclui-se destes dados informativos literários e históricos, que várias civilizações ensaiaram encaminhar para um molde prático, as imperiosas questões do dinheiro fracionado até atingirem o modelo ideal da moeda.

E é na origem e formação dos sistemas monetários, que a História Universal franqueia as suas portas ao interesse numismático.

Origem das moedas

A ideia de garantir oficialmente os metais como intermediários das permutas, parece ter tido a sua primeira aplicação na Grécia Asiática. Xenófanes, nascido em Cólofon, na Ásia Menor, em princípios do século VI a. C., proclama a prioridade dos lídios no que concerne à invenção da moeda. Heródoto supõe, dando seu testemunho, que:

"os lídios foram os primeiros a cunhar as moedas de ouro e de prata".

Que moedas seriam essas? Os documentos monetários que nos chegaram dessas antigas épocas, falam de pequenos lingotes metálicos, de pastilhas de forma irregular marcadas com golpes ou pancadas que Aristóteles definia como "uma indicação de valor".

O metal em questão era o electrum, assim denominado pela sua cor amarelo-pálido. Estas primitivas moedas provinham de regiões costeiras da Anatólia, vizinhas da Lídia.

A opulência dos reis lídios, de Candaule, o último da dinastia dos Heráclidas, de Giges seu sucessor (687 a.C. - 652 a.C.), cujo nome está associado àquele do ouro, a Aliate (610 a.C. - 561 a.C.) e a Creso, seu filho que o substituiu (561 a.C. - 546 a.C.), outro potentado faustoso cujos cofres estavam cheios de milhões de creseidas de ouro (nome de moeda antiga), parecem indicarpelos donativos suntuosos que estes déspotas fizeram aos santuários helênicos de Delfos, Artemísion, Éfeso e ao templo de Apoio em Didimaion, próximo de Miletoserem eles os inventores da moeda.

É natural que lhes atribuíssem a invenção, mas esta atribuição por isso mesmo, não está ao abrigo de suspeita. O fato é que não se conhecem moedas lídias antes das cresêidas de ouro ou de prata pura.

É interessante verificar a tendência que tinham os Antigos em atribuir uma invenção a um personagem ou a uma cidade ilustre para elevar sua glória, tendência essa tão distanciada do pensamento moderno, o qual apenas procura ver claro em presença dos documentos monetários existentes.

Os eruditos modernos estão de acordo em ver nessa moedagem ainda vacilante, emitida pelas cidades costeiras de Mileto, Éfeso e Focéia, uma manifestação da iniciativa privada dos banqueiros e mercadores que mantinham relações comerciais, não só com os poderosos reis da Lídia, como também com a clientela grega das margens do Mediterrâneo.

Os pesos destas peças se repartiam em dois grupos que tinham por centro Mileto e Focéia. A origem da moedagem não tinha ainda um caráter oficial e autocrático, mas privado e puramente prático.

Estas primeiras moedas não eram senão de um tipo que apresentava numa das faces um número em relevo e na outra uma marca côncava, onde se distinguiam silhuetas de animais: um leão, uma cabeça de leão, um cervo, um boi, uma foca, um atum, um florão, que bem poderia representar um brasão de armas de alguma cidade lídia.

As primeiras moedas

Aproximadamente há quase um século, pesquisadores da arqueologia numismática se inclinaram a abandonar as opiniões formuladas na Antiguidade, para considerar apenas como possíveis inventores da moeda os lídios e os eginéticos, decisão esta que obedeceu a um preciso estudo da documentação existente e a uma criteriosa observação cronológica.

A Giges, rei da Lídia, que se acredita viveu no século VII antes de Cristo e a Fidão, rei de Argos, que viveu na primeira metade do século VIII antes da era cristã, se atribuiu a paternidade da invenção da moeda.

Creseida de ouro cunhada por Creso, rei lídio, por volta de 561 a 546 a.C.. Fonte: CNGCoins

Ambos reclamaram essa prioridade e tanto as pretensões dos lídios, como a dos habitantes de Argos estavam tão bem fundamentadas, que o lexicólogo Polux, que se esforçou para esclarecer o assunto recolhendo várias tradições, concluiu ser muito difícil saber a qual dos dois se devia atribuir esse mérito.

Outra versão confere aos lídios a invenção da moeda, nos meados do século VII a. C., provavelmente no reinado de Giges, rei da Lídia, fundador da dinastia dos Mermnadas.

As primeiras moedas lídias caracterizavam-se por pequenos lingotes ovóides de uma liga natural de ouro e prata chamada electrum, que se encontrava no flanco das suas montanhas (Tomolus) e nas areias de alguns rios.

Creseida de prata cunhada por Creso, rei lídio, por volta de 561 a 546 a.C.. Fonte: CNGCoins

O electrum da ribeira de Sardes era mesmo na opinião de Sófocles, a segunda riqueza da Ásia. Estas primitivas moedas tinham numa das faces linhas longitudinais e na outra concavidades em forma de cruz.

Crê-se que depois dos lídios sob Giges, fosse Creso, o último representante da dinastia dos Mermnadas e o último rei da Lídia, o segundo a bater moeda; estas também com a forma ovóide, apresentavam numa das faces em meio corpo, um leão e um touro, olhando-se de frente. São denominadas cresêidas da Lídia.

Nesses primeiros tempos eram essas moedas de ouro, juntamente com os estáteres de outras cidades da Ásia Menor, assim como as dos reis persas, as célebres dáricas, moedas de Dario com o tipo do arqueiro, que corriam igualmente em toda a Grécia.

Estáter de Éfeso, cunhado em electrum, por volta de 650 a 625 a.C. Fonte: CNGCoins

O ilustre numismata francês Lenormant[1] chegou a conclusão que a cunhagem da moeda se fez isoladamente nos dois países: na Lídia e em Argos[2].

Giges, rei da Lídia, teria cunhado oficialmente a primeira moeda de ouro em Focéia e Fidão, rei de Argos, cunhado oficialmente a primeira moeda de prata em Egina.

A moeda de Fidão (prata), tinha a forma da tartaruga marítima da ilha de Egina e a moeda de Giges (ouro), embora do mesmo formato, era menos alongada e feita com uma liga natural chamado electrum, em que o ouro e a prata entravam na proporção de 4 para 1.

Dárico persa (tipo III) cunhado em ouro no 4º século a.C. Fonte: CNGCoins

Giges parece ter se limitado a fazer aplicar o sinete real sobre suas moedas de ouro de formato ovóide e a Fidão atribui-se a criação das estáteres de prata da ilha de Egina.

Cada uma dessas peças pesava aproximadamente 12 gramas e diferençavam-se das barras ovais de metal até então em uso, por uma estampagem grosseira.

Acredita Lenormant, que a moeda de Giges (Lídia) seja mais antiga que a de Fidão (Argos), baseando sua opinião nas respectivas características da moldagem, isto é, enquanto a primeira oferece as estampas em côncavo, a segunda apresenta o cunho em relevo.

Moedas primitivas de prata da ilha de Egina (sob o rei Fidão de Argos).‌‌Estas moedas apresentavam já uma marcante regularidade de peso; no anverso um quadrado incuso, quadrado este que acusava a deficiência do processo de fabricação para fixar os lingotes ou discos que deviam receber o cunho do emissor e o valor que representavam.

A invenção do cunho em relevo, continua Lenormant, foi um progresso capital que viria a constituir um novo capítulo na história da moeda, e a moedagem de Fidão preenchia essas condições, ao passo que as moedas lídias trazendo uma estampa em concavidade, autoriza a julgar serem de maior antiguidade.

Entretanto, os exemplares que acabamos de estudar na sua forma ainda irregular são considerados como os que deram origem à moeda de cunho oficial, e a fase distinta que as caracteriza está precisamente em que, em vez de trazerem a marca de um particular, como até então se apresentavam as peças metálicas precedentes, mostravam agora a do Estado, o que lhes dava uma garantia de homogeneidade e de pureza do metal.

Foram estas moedas que juntamente com os estáteres de outras cidades da Ásia Menor, assim como as dos reis persas — as célebres moedas de Dario com o tipo de arqueiro que igualmente corriam em toda a Grécia — as primeiras moedas com todas as características fundamentais que haviam de se tornar clássicas pelo seu uso através dos séculos[3].

Babelon, o renomado numismata francês, assim se refere a invenção da moeda:

"Esta invenção foi tardia, só teve lugar no começo do VII século antes da era cristã e a honra da prioridade só pode ser disputada, como toda a Antiguidade clássica o reconhece, entre os eginéticos e os lídios, quer dizer, entre dois povos vizinhos e irmãos de sangue".

A moeda nascida, como acabamos de ver, nas margens do Mediterrâneo Oriental, rapidamente se difundiu por todo o mundo helênico; da Lídia até as cidades gregas da costa ocidental da Ásia Menor e daí, transpondo o mar, passou ao litoral da Trácia e da Macedônia. Da ilha de Egina, à toda a Grécia continental.

O intenso comércio marítimo mantido por esses povos entre si, permitiu que a moeda se irradiasse para todas as localidades do mundo grego e demais países com quem mantinham relações comerciais. E diz Lenormant, na obra já citada:

"desde o meado do século VI antes de Cristo, não havia um pais onde os gregos estivessem estabelecidos, no qual eles não possuíssem sua moeda".

Algum tempo depois os fenícios adotaram suas primeiras peças, tudo indicando que suas emissões monetárias mais antigas foram ao tempo das Guerras Médicas. Por influência dos comerciantes fenícios e gregos de Menfis e de Náucratis, o Egito emitiu suas primeiras moedas.

Assim como os gregos pela sua prodigiosa expansão marítima levaram as suas moedas ao conhecimento de afastadas regiões semi-bárbaras, também os romanos contribuíram pelas conquistas dilatadas das suas legiões em guerras contínuas, para a penetração da sua moeda no vasto Império que desfrutaram.

Mapa da Grécia Antiga - Fonte: Atlas Histórico, São Paulo: encyclopedia Britannica, 1977, p. 16.

O sistema monetário dos romanos, embora proviesse da evolução do seu próprio padrão de valores, baseando-se no antigo sistema ponderal do seu território, não deixou de sofrer certa influência dos sistemas monetários gregos e a moeda romana ao se expandir, levava também um sinal emitido pelo poder público, o que lhe dava um cunho legal.

E no século III antes de Cristo, já o mundo civilizado tinha em caráter universal sua moeda, trazendo o cunho oficial.

Como todas as coisas humanas, a moeda vive e se transforma não somente em sua natureza, pois que os metais de que são feitas, submetidos à fusão, produzem material misto e variado.

Como também o espírito dos que as manipulam podem alterar mesmo sua significação original, criando para os estudiosos do assunto o encontro freqüente de uma ideia milenar conservada, transformada, mas delatando agradavelmente para quem a sabe interrogar a sua origem longínqua.

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Referências

[1] Lenormant, op. cit., vol. I, pág. 126.

[2] Lídia ou Meônia, país da antiga Ásia Menor, tendo por capital Sardes, hoje vilarejo turco de Sart.

Sobre a Lídia diz J. Ramon Mélida: "A História Real começa com o cário Giges que foi coroado rei da Lídia no ano 687 antes de Cristo. Conquistou parte da Frigia e cunhou moeda (das primeiras). O último rei lídio foi Creso, cuja riqueza já se tornou proverbial".

Argos, passava por ser a cidade ma s antiga da Grécia, representando um importante papel nos tempos heroicos. Foi desta cidade que partiu a célebre expedição dos Argonautas.

Egina, ilha da antiga Grécia, ao fundo do golfo de Egina, frente ao porto de Atenas. A ilha teve a princípio o nome de Oenona, que trocou pelo de Egina, em honra da ninfa, mãe de Esco, seu primeiro rei.

[3] Dárico: Moeda persa mandada cunhar por um dos Darios. Os dáricos eram de ouro sem liga. Tinham por cunho: no anverso, um homem barbado com a cabeça ornada pela corôa radial, tendo às costas um carcaz cheio de flechas, o joelho em terra e numa das mãos um arco e na outra uma lança ou um punhal;

O reverso é ocupado por uma área retangular cavada na moeda. Havia meios dáricos e duplos dáricos; estes tinham no reverso uma área elíptica guarnecida de estrias paralelas onduladas. O peso do dárico era de 8,42 gramas.

As peças de prata que tinham o mesmo tipo e a que certos numismatas chamavam igualmente dáricas, eram designadas na Antiguidade pelo nome de sida ou sida médica.

A amoedação do ouro era reservada ao rei; os governos locais deviam limitar-se à moeda de prata ou de bronze. Os persas tomaram para modelo de suas peças as moedas lídias, depois da ocupação da Grécia e da derrota do rei da Lídia.