Estou entre aqueles que entendem que uma coleção, qualquer que seja, não tem nenhum valor se não trouxerem consigo algum ensinamento.

Talvez por isso, tenha optado pela numismática, pois cada moeda ou cédula das nossas coleções carrega consigo um pouco do momento histórico, econômico e artístico em que elas foram concebidas.

Pesquisando as moedas e cédulas brasileiras, me chamou a atenção a grande quantidade de tipos de moedas (20) e cédulas (34) que traziam a figura do Imperador D. Pedro II.

Lembrei dos tempos da escola e fui conhecer a vida e a obra do personagem que mais aparece nesses pequenos pedaços da história brasileira. Sem a pretensão de fazer um trabalho completo, comecei a juntar as informações para que possamos conhecer ou recordar juntos, um pouco da vida desse homem que por quase 50 anos teve ao seu encargo, a condução política, econômica e cultural do nosso país.

Pedro de Alcântara João Carlos Leopoldo Salvador Bibiano Francisco Xavier de Paula Leocadio Miguel Gabriel Rafael de Gonzaga e Bragança, nasceu em 2 de dezembro de 1825, na cidade do Rio de Janeiro, filho do Imperador D. Pedro I e da Imperatriz Maria Leopoldina, da casa dos Habsburgo na Áustria.

Saudado por três salvas dos canhões das fortalezas e navios, se fosse menina seriam somente duas, nascia pela primeira vez em solo brasileiro, o principal herdeiro de todas as esperanças nacionais.

O golpe da abdicação

A conjuntura política e econômica do Brasil, vinha agravando-se desde a Independência em 1822.

Logo depois de sufocadas as resistências à Independência (lembrando que na Bahia o Brasil só se tornou independente em 2 de julho de 1823), foi iniciada a Guerra pela Província Cisplatina (1826/1828), que para atender aos interesses dos ingleses na bacia do rio da Prata, consumia os recursos do Real Erário.

Tendo assinado em 1825 o tratado com Portugal que reconhecia a Independência do Brasil mediante concessão de vantagens financeiras e em troca da manutenção da condição de herdeiro do trono português, D. Pedro I despertava a desconfiança e a decepção dos seus súditos brasileiros.

O imperador transformou o 1o. Banco do Brasil criado por seu pai em 1808, num emissor de papéis sem lastro, para custear as despesas da Corte e pagar os juros à Inglaterra. Em 1829, não restou outra alternativa senão decretar o fechamento do Banco, assumindo o governo com mais esse rombo em suas finanças.

Moeda de 10.000 réis de 1834 com efígie de D. Pedro II criança - Imagem gentilmente cedida pela Heritage Auctions

Outro fator de desequilíbrio, era a intensa produção de moedas de cobre, cujo valor monetário era muito superior ao valor intrínseco, dando margem a uma grande quantidade de falsificações (consta que 5 empresas nos Estados Unidos, sobreviviam quase que exclusivamente de falsificar essas moedas).

No auge de sua impopularidade, principalmente pela política autoritária sempre pronta a ceder aos interesses estrangeiros, nosso primeiro imperador no dia 9 de abril de 1931 partiu para Portugal, levando a filha mais velha Maria da Glória (futura Maria II – rainha de Portugal) para reivindicar o trono, usurpado pelo seu irmão Miguel. Para que isto acontecesse, D. Pedro I abdicou do trono brasileiro, em favor de seu filho Pedro de Alcântara, que tinha no momento 5 anos de idade.

Esse golpe só foi possível por que todas as forças políticas contrárias a D. Pedro I, que se aliaram em torno do partido brasileiro, viam na abdicação uma forma de tirar vantagens políticas da situação: Os "moderados" querendo construir uma monarquia de fachada onde o rei reina, mas não governa e os "exaltados" partindo para a experiência republicana, que já se iniciava em vários países do nosso continente.

O período das Regências (1831/1840)

Em sua partida, D. Pedro I nomeou o "moderado" José Bonifácio de Andrada e Silva (1763/1838) que assumiu a regência no período entre 1831 e 1833, tendo traçado os seguintes objetivos:

  • Atender as reinvindicações dos cidadãos proprietários através de instituições que garantissem o exercício da cidadania, tomando como exemplos: A formulação de uma lei Penal para todo o Império, a Formação do Exército Brasileiro e a descentralização administrativa com mecanismos explícitos de fiscalização através do poder central.
Cédula de 10 mil réis de 1835 - Acervo do autor
  • Construir uma nação indivisa, evitando-se a fragmentação como na América espanhola, lutando contra os movimentos separatistas e procurando intensamente a melhoria dos sistemas de comunicação e transportes.
  • Assegurar o respeito do Brasil na comunidade econômica mundial, através do saneamento e unificação do seu meio circulante. Nessa complexa tarefa, foram tomadas as seguintes ações:
  • 1831/32: Anulou-se a legislação que proibia a circulação interprovincial das moedas de cobre.
  • 1833: Emissão de papel moeda em substituição das moedas de cobre - Cédulas para o Troco do Cobre - que foram as primeiras cédulas oficiais brasileiras.
  • 1833: Fechamento de todas as casas da moeda (Bahia, Minas, Goiás, Cuiabá e São Paulo), centralizando toda a emissão na Casa da Moeda do Rio de Janeiro.
  • 1834: Novo padrão monetário com a extinção das "patacas"(80/160/320/640 e 960 réis) e lançamento da série dos "Cruzados" (100/200/400/800 e 1200 réis).
  • 1834: Como consequência dessas medidas, algumas províncias começaram a carimbar suas moedas, para evitar que saíssem de seus territórios: Ceará, Maranhão, Piratini (Rio Grande do Sul), Pará etc...
  • 1835: Criação do Carimbo Geral para reduzir o valor em 50%nas moedas comuns e 25% nas provinciais.
  • 1840: Inicio da Pluralidade Bancária concedendo o direito de emissão ao Banco Comercial do Maranhão.

Outras regências se sucederam como a de Manuel Inácio de Andrade Souto Maior o Marques de Itanhaém de 1833 a 1835, a de Diogo Antonio Feijó de 1835 a 1837, e a de Pedro de Araújo Lima, o Marquês de Olinda que assumiu a regência em 1837, seguindo sempre as mesmas orientações.

Nesse período, Pedro de Alcântara ficava quase que todo o tempo recolhido no Palácio de São Cristóvão na Quinta da Boa Vista, com suas irmãs, onde através de diversos mestres e cortesãos estudavam entre outras matérias: inglês, francês e alemão.

O golpe da maioridade

Em 22 de Julho de 1840, quando perguntado por Antonio Carlos de Andrada e Silva se desejava assumir o governo agora ou esperar que completasse 18 anos, o jovem Pedro disse: "Quero já!".

Dessa forma foi antecipada a sua maioridade e um ano depois, no dia 18 de julho de 1841 com 15 anos, seria coroado como "Dom Pedro II Imperador Constitucional do Brasil, por graça de Deus e Unânime aclamação dos povos".

A antecipação da maioridade foi a solução encontrada entre os importantes grupos dirigentes, para que a propaganda republicana que já tomava corpo, fosse aniquilada, tendo na figura do Imperador, o elo que faltava para dar coesão ao poder do Estado Imperial.

Além de chefe supremo do País, a Constituição de 1824 atribuía ao Imperador, um poder pessoal, o "Poder Moderador" que se sobrepunha ao Executivo, ao Legislativo e ao Judiciário.

Essa decisão encontrou forte resistência, sobretudo nos grupos que exerciam grande poder sobre os regentes e na estrutura cortesã montada para amparar e instruir o futuro Monarca. Isso explica esse espaço de um ano decorrido entre a antecipação da maioridade e a sua coroação.

A conjuntura encontrada

Quando da sua coroação as condições do País eram bastante precárias. Havia em andamento dois conflitos internos: A "Balaiada" (1838/1842) no Maranhão e Piauí e a "Revolução Farroupilha" (1835/ 1845) no Rio Grande do Sul.

O Brasil contava com cerca de 6 milhões de habitantes concentrados em pequenas faixas do litoral. Muito do País precisava ser conhecido e povoado. A incipiente organização administrativa do Brasil e a vastidão do seu território, mantinha isoladas as províncias, sempre a desafiar o "Poder Central".

A economia de base agrícola, sustentada por mão de obra escrava, era totalmente voltada para a exportação, para conseguir recursos para pagar os juros da dívida externa com a Inglaterra, que somava cinco milhões, quinhentos e oitenta mil libras esterlinas!

Os primeiros anos

De acordo com a "Constituição de 1824", a estrutura política era a seguinte:

  • Conselho de Estado: Cargo vitalício de pessoas indicadas pelo Imperador, que podia ser suspenso por tempo indeterminado.  Vale dizer que esse "Conselho" houvera sido dissolvido no período das Regências e resgatado no inicio do II Império com o propósito de assessorar o jovem D. Pedro II no desempenho das suas atribuições, que eram a de garantir a Independência, a indivisibilidade do território e o equilíbrio e harmonia dos poderes públicos. A partir de 1847, D. Pedro II instituiu a figura do "Presidente do Conselho de Estado", que era indicado por ele, e esse presidente passaria a indicar os componentes do Conselho.
  • Ministros: Seus membros eram escolhidos pelo Imperador e representavam o Poder Executivo.
  • Senadores: O Imperador escolhia em lista tríplice obtida por eleição popular, cidadãos com idade mínima de 40 anos e ganhos anuais superiores a 800 mil réis. Era um cargo vitalício, sendo que o Visconde Souza Queiroz ficou no cargo de 1848 a 1889, só deixando de ser senador com a proclamação da República. Deste segmento saíram as figuras ilustres e mais representativas da época.
  • Deputados: Escolhidos em eleição popular, cidadãos com idade mínima de 25 anos e ganhos anuais superiores a 400 mil réis. Esse cargo era ocupado por políticos mais jovens, quase sempre profissionais liberais ou pequenos comerciantes.

Durante todo o II Império, houve dois partidos que se alternaram no poder:

  • Partido Conservador: composto pelos antigos "moderados" que tinha tendência centralizadora e representava o grande comercio e a grande lavoura de exportação.
  • Partido Liberal: agregando os antigos "exaltados", composto em sua grande maioria, por profissionais liberais urbanos e agricultores do mercado interno. Lutava contra a centralização.

A formação do primeiro dos 36 ministérios de D. Pedro II foi fortemente influenciada pelo grupo que o cercava, desde a sua primeira infância. Afinal até aquele momento, ver caras conhecidas e familiares daquilo que até então era o seu mundo, valia mais do que a competência para o desempenho das funções.

Nesses primeiros anos do seu amplo governo, a personagem que mais o influenciou foi o mordomo da Casa Imperial, Paulo Barbosa da Silva (1790/1868), criando o satírico ditado: "Paulo primeiro! Pedro segundo!".

Moeda de 20.000 réis de 1852 - 3º Sistema Monetário - 1º Tipo - Imagem cedida pela Heritage Auctions

Casou-se em 1843 com Dona Teresa Cristina Maria de Bourbon, princesa das Duas Sicilias, com quem teve 4 filhos: Afonso (1845/1847), Isabel (1846/1921), Leopoldina (1847/1871) e Pedro (1848/1850).

A reorganização do Estado

Se no início do seu reinado, era ainda um adolescente influenciável, amadureceu muito com o encerramento do ciclo das revoluções e passou a exercer o seu poder pessoal de hábil político e um administrador de visão.

Logo no início da década de 50, os bons fluidos partiram do Executivo e do Legislativo, onde se destacaram: a promulgação do "Código Comercial", as "Leis das Terras" e a "Reforma Judiciária".

No âmbito do executivo, destacam-se a proibição do trafico de escravos, a criação da província do Amazonas, a reorganização do Corpo Diplomático, das Forças Armadas, da Educação e de outros setores administrativos do Governo.

Cédula de 2000 réis de 1870 - 5ª estampa - Acervo do autor

No campo econômico (e numismático) reiniciou em 1847 a cunhagem de ouro e prata e no ano seguinte, estabeleceu o novo sistema monetário, o 3o. do Império, abolindo-se o "cruzado" e adotando-se o "padrão ouro" vigente na Inglaterra. Cunharam-se moedas de 200/500/1000 e 2000 réis de prata e 5000/10000 e 20000 réis de ouro.

Nessa época, devido à constante valorização do café e do açúcar e os efeitos de uma austera política tarifaria, a taxa de cambio do "mil-réis" alcançou paridade com a libra esterlina. Para se ter uma ideia do valor do dinheiro, em 1850 um bom almoço custava por volta de 2000 réis, um cafezinho 60 réis e o recém chegado sorvete 320 réis.

Na área administrativa, foi realizado um grande esforço para a construção do aparato necessário para a complementação da obra de unificação nacional, auxiliada pelos grandes inventos tecnológicos do século XIX.

De "olho" na evolução da tecnologia

O caráter de amante das ciências e da evolução tecnológica de D. Pedro II, podem ser atestados principalmente nos seguintes casos:

  • Em 1852, D. Pedro II inaugurou o Telegrafo no Brasil, inventado somente 8 anos antes nos Estados Unidos por Samuel Morse, tendo a primeira linha ligado o Palácio de São Cristóvão ao Quartel General do Exército. A partir de 1857 foi liberada a utilização publica, sendo que as primeiras linhas interligavam a Corte com as províncias do Sul, até que em 1873 foram interligadas as províncias do norte e do nordeste e em 1874 a conexão com a Europa. Em síntese, o governo Imperial havia construído 19.000 quilômetros de linhas telegráficas até 1889.
  • Ainda no campo das comunicações, D. Pedro II, participante ativo das feiras internacionais, tomou conhecimento na Feira Mundial de 1876 na Filadélfia, do modelo de telefone apresentado pessoalmente por Graham Bell ao Imperador. Essa apresentação o deixou fascinado quando soube antever o alcance do equipamento, principalmente num País com as dimensões do Brasil, e logo "comprou" a ideia, tendo implantado a tecnologia no País em 1877 e fundado a Companhia Telefônica do Brasil em 1879.
  • Em 1954 foi construída no Rio de Janeiro a primeira linha férrea do Brasil. Em 1858 foi inaugurado o primeiro trecho da Estrada de Ferro D. Pedro II que ligaria o Rio de Janeiro a São Paulo e a Minas Gerais. No ano de sua deposição em 1889, o Brasil contava com mais de 9.000 quilômetros de estradas de ferro.
  • Também na área dos transportes, nesse mesmo ano de 1854 iniciavam-se as primeiras linhas de navegação costeira regular, que ligavam as cidades do norte e nordeste com a Corte e com as províncias do sul. Esse meio de transporte funcionou bem por mais de 100 anos.

Além da implantação das novas tecnologias que resolveriam parte dos problemas cruciais da Nação que eram Comunicação e Transporte, D. Pedro II foi o pioneiro da fotografia no Brasil, uma vez que adquiriu e operou a primeira maquina de daguerreotipia (a futura máquina fotográfica) 08 meses antes da chegada da segunda dessas máquinas ao Brasil.

A formação da cultura brasileira

D. Pedro II filiou-se ao Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro em 1838. Esse Instituto que o Imperador começou a frequentar mais assiduamente em 1840 era composto, em sua maior parte da "boa elite" da Corte, que se reuniam todos os domingos em uma sala do Paço Imperial para discutir os assuntos nacionais e não deixar para os estrangeiros a tarefa de escrever a história do Brasil.

A partir de 1850, D. Pedro II toma a presidência do IHGB, presidindo até 7 de novembro de 1889, uma semana antes da proclamação da República, um total de 506 sessões.

Através do IHGB, foi formulado o projeto de uma cultura "genuinamente nacional", e através do financiamento direto, do incentivo ou do auxílio a poetas, músicos, escultores, pintores e cientistas, o Imperador tomava parte nesse projeto que implicava, além do fortalecimento da monarquia, na própria unificação nacional.

Esse projeto que elegia o Índio como símbolo da cultura nacional em detrimento do negro que lembrava a escravidão, ocorreu sob proteção do Imperador, e teve seus ícones como Gonçalves Dias e José de Alencar na literatura e Victor Meireles e Pedro Américo na pintura, e que atingiu seu apogeu na musica com Carlos Gomes com a ópera "O Guarani", que foi apresentada em 2 de dezembro de 1869 para homenagear o Imperador por ocasião do seu aniversario.

2000 réis 1869 - 3º Sistema Monetário - 4º tipo - Imagem da Internet

Esta obra, considerada um clássico mundial seria apresentada no Teatro Scala de Milão em 1870, tendo repetido suas diversas montagens até os dias atuais.

Nesse tempo a figura simbólica do índio, começa a aparecer nas cédulas e nas medalhas brasileiras, procurando se consolidar como a imagem do Império.

A criação da nobreza no Brasil

A prerrogativa de conceder títulos e honrarias, parece ter sido uma das primeiras faculdades exercidas por D. Pedro II.

A Nobre Corporação dos Reis de Armas, o cartório da nobreza, que foi instalada em 1810 por seu avô D. João VI, teve suas leis específicas alteradas em 1847 e serviram para conceder durante o reinado de D. Pedro II, 946 títulos de nobreza, sendo 2 Duques, 25 Marqueses, 29 Condes, 145 Viscondes e 745 barões.

Considere-se que esses títulos eram pagos e representavam uma parte da arrecadação, como se pode ver na tabela de preços de 1879: Um título de "Duque" custava dois contos quatrocentos e cinquenta mil réis, de "Marquês" dois contos e vinte mil réis, de "Conde" um conto quinhentos e setenta e cinco mil réis, de "Visconde" um conto e vinte e cinco mil réis, já o de "Barão" saia um pouco mais barato, por setecentos e cinquenta mil réis e era concedido principalmente para os grandes agricultores, por isso entendemos o termo: "Barões do Café".

Entrando na "onda" da cultura "genuinamente nacional", boa parte da escolha dos títulos, que eram prerrogativa exclusiva do Imperador, levavam nomes indígenas como: Marques de Sapucaí, Conde de Itanhaém, Barão de Gravataí etc. Junto com os títulos vinham os brasões e as armas, florescendo a heráldica no Brasil.

O próprio escudo de armas do Império, era composto por uma esfera armilar atravessada por uma cruz da "Ordem de Cristo", circulada por 19 estrelas representando as províncias e a Corte, firmada pela coroa real sobre um escudo, cujos lados são abraçados por dois ramos de plantas de café e tabaco, ligadas na sua parte inferior pelo laço da nação.

A Política da Conciliação

Para a consolidação do avanço político e administrativo, D. Pedro II, reuniu em um só ministério, as duas facções políticas: os "Conservadores" e os "Liberais", para realizar um ambicioso projeto de reformas políticas para fortalecer as instituições monárquicas e constitucionais.

Para chefiar esse projeto, D. Pedro II trouxe o político mais influente na época, Honório Hermeto Carneiro Leão (1801/1856) e mais tarde José Maria da Silva Paranhos, o "Marquês do Rio Branco".

Com a ajuda dessa política e pela riqueza obtida com a exportação do café, toda a economia prosperou e transformou esse período na fase áurea do II Império, onde D. Pedro II realmente reinou, governou e administrou.

Um exemplo dessa sua habilidade política foi o processo de aprovação da "Lei do Ventre Livre" em 1871. A proposta foi apresentada em 3 de maio, na fala do trono de abertura do ano legislativo, causando enorme impacto político.

A seguir D. Pedro II solicitou licença para se ausentar do País e declarou a princesa Isabel, sua filha mais velha, regente com plenos poderes. Dessa forma, quando começaram as discussões do projeto na Câmara dos Deputados, D. Pedro II já se encontrava a caminho da Europa, deixando seus adversários políticos que o acusavam de manipulador, órfãos de argumentos.

A estratégia deu certo e em 27 de setembro daquele ano, a lei foi sancionada pela princesa Isabel. Muitos afirmam que as leis abolicionistas sempre assinadas pela princesa Isabel na ausência do pai, faziam parte de sua estratégia para torná-la mais popular entre os súditos, ao mesmo tempo em que preservava sua imagem junto aos senhores proprietários de escravos.

Em 1868, o Imperador não aceitou o pedido de demissão do marquês de Caxias, comandante em Chefe dos exércitos, apesar das críticas de Zacarias de Góes presidente do Conselho de Ministros.

Entre o comandante conservador e o ministro liberal, ficou ao lado do comandante que considerava um velho e fiel aliado, dissolvendo o ministério e indicando para o governo, o senador Joaquim José Rodrigues Torres, o visconde de Itaboraí. Era o fim da política da conciliação.

Nesse mesmo ano de 1868, o Brasil lança pela primeira vez moedas de bronze cunhadas em Bruxelas, nos valores de 10 e 20 réis e posteriormente já cunhadas no Brasil as moedas de 40 réis.

Em 1871 foi lançada a primeira série de moedas de níquel, nos valores de 50/100 e 200 réis. Era o Brasil inovando em termos de moeda com pequeno valor intrínseco desde o final da cunhagem do cobre.

As viagens de D. Pedro II

Culto poliglota e extremamente atencioso, suas viagens ao exterior valeram mais que muitas missões diplomáticas, projetando o Brasil no exterior.

Além de participar de eventos científicos e exposições mundiais, circulou com desenvoltura por lugares distantes como o Império Otomano, a Rússia, a Palestina e o Egito, que transformaram nosso Imperador num astro do cenário mundial, tendo sido designado várias vezes para atuar como juiz em comissões internacionais de arbitramento.

A Guerra do Paraguai (1864/1870)

Sem dúvida nenhuma, a mais espinhosa tarefa de D. Pedro II, foi a de participar juntamente com a Argentina e o Uruguai, da guerra contra o general Solano Lopes do Paraguai.

A guerra do Paraguai custou um alto preço em dinheiro: exatos 614 mil contos de réis (onze vezes mais do que o orçamento anual do Real Erário) e em vidas humanas, além de abalar seu prestígio perante a opinião pública e o Exército Brasileiro, que sem efetivos suficientes teve que recrutar cidadãos livres e escravos. Nesse episódio surpreendeu os políticos e agradou o povo, na sua decisão de se apresentar como voluntário número 1.

No final da guerra do Paraguai em 1870, fundava-se um novo partido, o "Republicano", que cresceu rapidamente com os fazendeiros de café do oeste paulista, os pequenos e grandes empresários urbanos e uma ampla camada de funcionários públicos descontentes com o Império.

Uma boa parte da oficialidade militar, descontente com as suas atribuições consideradas humilhantes como a defesa dos interesses ingleses e a incumbência de capturar escravos fugidos, viria mais tarde a aderir a esse partido.

Os últimos anos de Governo

Abatido e precocemente envelhecido por diversas enfermidades, afastou-se nos últimos anos de governo, dos negócios de Estado.

Em 1888, durante o último período de regência da princesa Isabel, foi decretado o fim da escravidão no Brasil, executando enfim a promessa feita pelo seu pai aos ingleses em 1830, sendo o último dos países da América a tomar essa atitude, o que elevou o nome do Brasil e o do Imperador perante os seus súditos mais humildes.

Em junho de 1889, apesar de muito doente conseguiu, num último esforço para dar sobrevida ao Império, nomear um gabinete liberal, presidido por Afonso Celso de Assis Figueiredo, o "Visconde de Ouro Preto" (1837/1912).

Cédula de 5 mil réis de 1888 - 9ª estampa - Acervo do Autor

Nesse momento, a propaganda republicana já estava nas ruas, apoiada ainda pelos descontentes com a abolição da escravatura e pela insatisfação dos militares.

Deposição e banimento

Com a proclamação da República no golpe militar de 15 de novembro de 1889, D. Pedro II foi humilhantemente banido do território brasileiro, realizado na calada da noite e sob ameaça de armas.

Logo que desembarcou em Lisboa no dia 7 de dezembro, seguiu para a cidade do Porto, onde faleceu no dia 28 sua companheira de 46 anos de casamento, a Imperatriz Teresa Cristina. O ex-Imperador do Brasil e agora somente o cidadão brasileiro Pedro de Alcântara, teve problemas práticos de onde se instalar e como sobreviver com a família e como reaver os bens deixados no Brasil, o que só veio a acontecer no fim de 1890.

Nesse período, recusou a dotação de recursos oferecidos pelo governo do Marechal Deodoro da Fonseca, uma vez que condicionou a aceitação do auxilio financeiro à revogação dos decretos de banimento.

Seguindo os passos do genro, o Conde D'Eu, morou na França em Cannes, Versalhes e por fim Paris, onde morreu num modesto quarto de hotel no dia 5 de dezembro de 1891 aos 66 anos de idade.

Por causa do decreto de banimento, só revogado pelo presidente Epitácio Pessoa em 3 de setembro de1920, seus restos mortais só retornaram ao Brasil em 1921 e foram depositados no mausoléu da catedral de Petrópolis; cidade imperial que ele construíra.

Curiosamente, em 1923, dois anos após seu traslado, a figura de D. Pedro II volta a aparecer no dinheiro brasileiro, na cédula de 200 mil réis do Banco do Brasil.


Nos quase 50 anos de seu reinado, o menino órfão de mãe desde os dois anos e que fora abandonado por seu pai e pela sua irmã mais velha aos 5 anos, e que aos 15 anos recebeu a incumbência de governar um País cheio de crises e revoltas internas, conseguiu, nesse longo governo onde não houve um só período de censura à imprensa e nem presos políticos, através do seu carisma pessoal e de sua habilidade política, a construção da unidade nacional onde só havia territórios dispersos e aboliu o cativeiro numa nação que aparentemente não conseguiria sobreviver sem escravos.

Como diriam alguns historiadores: "No seu longo reinado, a única coisa que D. Pedro II não fez, foi a barba".


Fonte:
O presente artigo foi escrito por Cláudio Patrick Amato, fruto da palestra apresentada durante o "Encontro Nacional da SNB" em 25 de março de 2006.

Posteriormente foi republicado no Boletim nº 57 da Sociedade Numismática Brasileira.

A publicação de artigos dos boletins da SNB no Blog do Collectgram foi autorizada pela SNB, na pessoa do então Presidente Gilberto Tenor no dia 11/08/2018.