Diferente dos dias atuais, houve uma época em que a tinta que era impressa nos papéis dos jornais era algo que buscava cumprir um compromisso com a verdade... OK, tirando alguns anúncios de tônicos e elixires milagrosos que ficavam na parte dos classificados.

Mas eu não estou falando de jornais da década de 70, 80 ou dos anos 90. Estou falando de jornais de uma época pré-televisão, de quando esse era um meio de divulgar as notícias do dia-a-dia, de informar as novidades, de registrar que perdeu ou encontrou algo, de se despedir de quem já foi.

Eu sou fascinado pelos jornais antigos e sempre recorro a eles quando quero encontrar informações que as vezes não estão nos livros ou na internet, pelo menos não acessíveis de forma fácil pelo Google ou outros mecanismos de busca padrões.

Eu tenho usado muito essa fonte de informação para encontrar novos fatos sobre relacionados a numismática, a filatelia e ao colecionismo em geral.

Vou relatar abaixo 3 situações em que jornais antigos me ajudaram a esclarecer informações relacionadas ao colecionismo e a numismática:

1. Garrafa encontrada com a ajuda de um jornal

Eu já recorri aos jornais antigos para descobrir informações sobre uma garrafa encontrada no Rio Acre por um colecionador. A investigação começou só com uma palavra fundida na garrafa "Progredior".

Fiz pesquisas em jornais antigos e descobri um anúncio no jornal "A província" edição 166 de 25 de julho de 1901 publicado por uma certa fábrica de bebidas chamada de Recife-PE chamada "Progredior".

Agora eu tinha um dado novo, sabia que se tratava de uma fábrica de bebidas de Recife. Com isso, fiz pesquisas mais avançadas no Google para descobrir mais informações. Sim, existem técnicas para fazer buscas mais avançadas e profundas no Google e você também pode pesquisar assim para encontrar informações específicas.

Foi aí que descobri uma tese de Pós-Graduação do curso de História da UFPE, da pós-graduanda Noemia Maria Queiroz Pereira da Luz com o título "Os caminhos do olhar - Circulação, Propaganda e Humor - Recife (1800-1914)".

Essa tese trazia em uma de suas páginas uma foto dos produtos da Progredior e uma das garrafas da foto batia com a garrafa encontrada pelo Colecionador.

Recorte do jornal "A província" de 25 de julho de 1901, edição 166, página 4 (a esquerda) e à direita, Fotografia de vários produtos da Progredior do álbum artístico Commercial e Industrial de Recife, Pernambuco, 1913, publicada na tese de Pós-Graduação em História de Noemia Maria Queiroz Pereira da Luz com o título "Os caminhos do olhar - Circulação, Propaganda e Humor - Recife (1800-1914)"

Como essa garrafa do início do século XX que guardava bebidas de uma fábrica de bebidas de Recife-PE foi parar em um rio em Rio Branco-AC, há 4.637 km de distância, é história que o tempo guarda em segredo.

2. Informações sobre 1 Cruzado Novo com a Cruz de Cristo encontradas em jornais antigos

Já recorri às páginas de jornais antigos para buscar mais informações de época sobre a moeda de 1 Cruzado Novo com a Cruz de Cristo.

Lendo o artigo do amigo Emerson Pippi sobre a moeda de 1 Cruzado Novo com a Cruz de Cristo, republicado aqui no Blog do Collectgram no dia 17 de fevereiro de 2020, me questionei se não haviam informações sobre a emissão da moeda nos jornais da época.

1 Cruzado Novo com a Cruz de Cristo: novas informações
Novas informações sobre a moeda de 1 cruzado novo de 1990 com a Cruz de Cristo, informações e imagens exclusivas importantes para colecionadores numismatas.

Foi nos jornais antigos que encontrei as informações que incluí como complementares no artigo do amigo:

Recorte do Jornal O Liberal, Ed. 22.467 de 24/10/1989 - Página 15
Recorte do Jornal Correio Braziliense, Ed. 9682 de 26/10/1989 divulgando design da moeda de 1 cruzado novo e notícia da cédula de 500 cruzados novos

Foi através desses recortes que vimos hoje o design oficial da moeda antes de ser cunhada e o apelido "Cruz de Cristo" tão difundido atualmente, por exemplo.

3. Informações sobre primeiras moedas do Império do Brasil e a Peça da Coroação

Foi em uma dessas pesquisas pelas páginas de jornais antigos que encontrei referências interessantes, e da época, sobre as moedas de 6.400 réis cunhadas para a coroação de D. Pedro I.

Peça da coroação: a moeda mais cara do Brasil
Conheça a peça da coroação de D. Pedro I, a primeira moeda do Brasil independente, a moeda ícone da numismática brasileira, a moeda brasileira mais valiosa já vendida em leilão.

O jornal em questão é o Diário do Governo, publicado na terça-fera de 1º de julho de 1823 no então Império do Brasil.

Na página 250 do jornal há um pedido de esclarecimentos endereçado ao Provedor da Casa da Moeda, assinado por Nogueira da Gama em 27 de agosto de 1823.

Acredito que Nogueira da Gama é o nome ilustre de Manuel Jacinto Nogueira da Gama (nasceu em 8 de setembro de 1765 e morreu em 15 de fevereiro de 1847), primeiro visconde com grandeza e marquês de Baependi.

Transcrevo abaixo o pedido de esclarecimento, com adaptações ortográficas para o português atual:

O Provedor da Casa da Moeda imediatamente declare se teve ordem vocal, ou por escrito, e de quem para a supressão da moeda com o novo cunho do Império? Se tendo já pronta certa quantidade de moeda do cunho do Império, proibiu aos trabalhadores dela o seu giro. Que porção de moeda de ouro, e prata, ou cobre existia no dia 16 de julho [de 1823] com o cunho do Império? Até que dia se tem cunhado moeda de prata, e cobre com o cunho antigo, e Armas do Reino Unido, depois da nossa feliz separação, e declaração de independência? Rio de janeiro 27 de agosto de 1823
— Nogueira da Gama.

A resposta veio do Dr. José Maria da Fonseca Costa, então Provedor da Câmara da Moeda, o qual transcrevo também abaixo, com adaptações ortográficas para o português atual:

Illust. e Excel. Sr. — Em conformidade da Portaria de V. Excelência, que recebi na data de hoje, vou por na presença de V. Ex. , que nenhuma ordem vocal, e por escrita recebi para a supressão da moeda co o novo Cunho do Império, nem proibi o giro da que se tem cunhado; em 22 do corrente se deu princípio a cunhar moedas de cobre de vinte réis com as Armas do Império em conformidade das Portarias de 21 de julho deste ano, e de 22 do presente mês, continuando-se a cunhar as outras moedas de cobre com os cunhos antigos, por não se poder em tão curto espaço de tempo abrirem-se cunhos de toda as qualidades de moedas para trabalharem todos os Engenhos ao mesmo tempo, como V. Ex. me disse vocalmente; em 26 deste corrente mês principiou-se também a cunhar com o novo cunho das Armas do Império as moedas de 960 réis da prata do Banco vindas neste mês.
Até o dia 16 de julho passado não se cunharam em ouro, prata, ou cobre com o novo cunho das Armas do Império, senão sessenta e quatro peças de ouro de 6:400 réis com o Retrato de Sua Majestade I. de corpo nu, para o dia da Coroação, cujo retrato não tornou a servir mais por não agradar ao Mesmo Imperial Senhor; e desde então até o dito dia 16 de julho não houve mais decisão alguma sobre a sua forma, e das outras moedas, por não ter o Abridor Frances aprontado coisa alguma do que tinha sido encarregado pelo Presidente, que então era do Tesouro Público, nem eu ter ordem do mesmo para mandar fazer na Casa dos cunhos, que não dependiam de retratos, o que logo se efeituou depois da entrada de V. Ex., V. Ex. mandará o que for justo. Rio de Janeiro em 27 de agosto de 1823.
— José Maria da Fonseca Costa, Provedor da Câmara da Moeda. — Antonio Homem do Amaral.

Percebam que de um simples recorte de jornal, conseguimos encontrar informações importantes para os estudos numismáticos do Brasil:

  1. As moedas de cobre 20 réis de 1823 tiveram cunhagem iniciada dia 22 de agosto de 1823;
  2. Moedas continuaram sendo cunhadas com os cunhos antigos nos primeiros meses após a declaração de independência;
  3. Moedas de 960 réis de 1923 do Império do Brasil tiveram cunhagem iniciada no dia 26 de agosto de 1823;
  4. Confirma a cunhagem de 64 peças de 6.400 réis para a coroação de D. Pedro I;
  5. Que o retrato de D. Pedro I cunhado na peça da coroação, busco em corpo nu, não agradou o Imperador; e
  6. Que até 16 de julho de 1823 não haviam decidido sobre o novo design das moedas de 6.400 e de outras moedas porque não havia abridor francês contratado para abrir os cunhos.

Deixo abaixo o recorte do Jornal para quem quiser ler como foi impresso:

Jornal Diário do Governo, edição 02 de 1º de julho de 1823, página 250

Onde pesquisar jornais antigos?

Se você chegou até aqui, já deve estar se perguntando onde acessar esses jornais antigos e iniciar suas pesquisas numismáticas.

Antes de mais nada, já digo que a pesquisa em jornais antigo é um pouco diferente de uma pesquisa no Google, não será simples como digitar um termo e encontrar tudo lindo.

Você vai precisar garimpar informações, entender sobre a linha do tempo e local que o assunto que você quer pesquisar estava inserido, terá que entender o formato e estrutura da informação nos jornais antigos e por vezes terá que pesquisar usando palavras na forma que eram escritas na época e, principalmente, terá que ler muito.

Uma das principais e mais fáceis fontes que você pode usar é a Coleção Digital de Jornais e Revistas da Biblioteca Nacional disponível nesse site (http://memoria.bn.br/hdb/periodico.aspx).

Tela do mecanismo de pesquisa da Coleção de Jornais e Revistas da Biblioteca Nacional

Você poderá pesquisar em um jornal específico, por período ou local, selecionando período e/ou pesquisando por frase exata.

Com o tempo você vai encontrar a melhor forma de pesquisar para o seu caso, quais palavras são mais específicas, quais são mais abrangentes, enfim, o importante é não desistir nas primeiras pesquisas.

Outra fonte de pesquisa parecida, recém disponibilizada ao público é o acervo de Atas das Reuniões do Conselho Monetário Nacional de 1965 a 2006, disponíveis nesse link (https://www.bcb.gov.br/acessoinformacao/cmnatasreun).

Espero que tenham gostado da dica e das descobertas, estou ansioso para ver o que vocês descobriram em suas próprias pesquisas.

Boa sorte!