O que é numismática, sua definição, posições entre as ciências e as divisões da numismática?

Numismática é a ciência que estuda a moeda de todos os povos e de todos os tempos, classificando-a, interpretando-a e descrevendo-a sobre vários aspectos. Sua denominação provém de numus ou numisma, que significa em latim - moeda.

Com este artigo da Revista de História iniciamos a publicação das notas de aula do Curso de Numismática, ministrado — como professor-visitante — pelo Dr. Álvaro da Veiga Coimbra, presidente da Sociedade Numismática Brasileira, na Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras da Universidade de São Paulo, curso esse aberto aos alunos da Seção de História e como curso de extensão universitária aos demais interessados.

Fazemos esta publicação, porque é pela primeira vez — ao que sabemos — que se faz um curso dessa natureza em Universidade no Brasil, e também por ser de grande interesse para o conhecimento dos nossos alunos.
— E. Simões de Paula (1965)

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Havendo objetos que pela sua utilidade e mais ainda, pelo seu feitio se assemelhavam às moedas, como as medalhas, os contos para contar, os tentos, senhas de presença, etc., a ciência moderna que tende para a especialização, ao contrário do que se fazia outrora em que tudo era material numismático, separou estas últimas das moedas propriamente ditas, em duas disciplinas da Numismática, embora tenham elas relações íntimas:

  • Medalhística, o estudo das medalhas;
  • Tesserologia, para os contos, tentos, etc., isto é, o estudo das pseudo moedas.

A Numismática, tendo começado apenas por se ocupar das moedas antigas — alargou seu âmbito para estudar a moeda, isto é, tudo o que tenha servido em qualquer época, das mais remotas eras até aos nossos dias como padrão comparativo de valor das permutas das sociedades humanas, em qualquer ponto da Terra.

É imprescindível ao numismata, possuir uma sólida cultura geral, nomeadamente histórica. O numismata, como especialista que é do estudo de uma determinada espécie de objetos, neste caso a moeda, que faz parte da vida do homem e desempenha papel preponderante nas relações comerciais, tem necessidade de enquadrá-la no meio histórico social onde nasceu e estudá-la como um produto que é do viver dos povos a que pertence.

Os primórdios da Numismática, cujo estudo podemos por isso dizer começou com o Renascimento, pelo gosto que as antiguidades gregas e romanas despertaram nas elites nos fins da Idade Média e em que o nome do ilustre Petrarca (1304-1374) é apontado como um dos primeiros que acarinharam os velhos numismas, foram de início simples, como de um modo geral o de todas as outras ciências.

Devem os primeiros estudos das moedas antigas a sua elaboração aos eruditos do Renascimento, como o Tractatus de Origine Monetarum de Oresmius (1385), a Miscellanea de Ângelo Policiano, aparecida em 1489, o Liber de Origine et Ratione Monetae, do Bispo de Worms (1503) e sobre todos o célebre De Asse et Partibus Eius, de Guilherme Budeu, que data de 1515.

Todos estes trabalhos, entretanto, como outros que se lhes seguiram nos séculos XVI e XVII, não constituem, todavia, nenhuma sistematização, pois tal apenas se deu no século XVIII, quando José Eckhel apresentou sua notável Doctrina Numorum Veterum, em 8 volumes, impresso em Vindobona (Viena), 1792-1798, que marcou o começo de uma nova orientação nos estudos das moedas antigas.

Esta obra admirável, padrão imorredouro dos estudos históricos, facultou à Numismática uma sólida doutrina, servida pelos métodos mais perfeitos e apropriados para o tempo, nomeadamente o que dizia respeito à ordenação das moedas, de maneira que a ciência passou desde então a ser cultivada com espírito científico, como ainda nunca tinha sido. Não tardou que outros trabalhos, insuflados pelo que escrevera Eckhel, viessem à público.

E assim apareceram os seguintes trabalhos:

  • Mionnet, Description de Médailles Antiques, em 18 volumes (Paris, 1822-1847);
  • Théodore Mommsen, a Histoire de Ia Monnaie Romaine, tradução francesa em 3 volumes (1865-1873);
  • Henri Cohen, a Descriptior Generale des Monnaies de la Republique Romaine (Paris, 1857); e
  • Description Historique des Monnaies Frappes sous l'Empire Remam (Paris, 1859-1888);
  • Ernest Babelon, a Description Historique et Chronologique des Monnaies de la Republique Romaine (Paris, 1885-1886) em 2 volumes.
  • A coleção dos magníficos Catálogos do Museu Britânico, das séries gregas, etc.

Como se verifica pelos títulos dessas obras clássicas, o tema era também aquele que desde o Renascimento ocupava quase exclusivamente a atenção dos eruditos, ou sejam as antiguidades gregas e romanas, passando despercebido a esse movimento cultural dos séculos XIV e XV, o estudo da moedagem da Idade Média. Este período foi então classificado de "bárbaro" e assim denominado "gótico", como sinal daquele duro julgamento.

Mais tarde, quando se começaram os estudos sobre este período histórico conhecido por Idade Média, ou seja, o que vai da queda do Império Romano do Ocidente, em 476, à queda do Império Romano do Oriente, em 1453, foi que os estudiosos começaram, embora tardiamente, a ter sua atenção despertada para as moedas dessa época.

Vamos agora ilustrar sobre o valor que os ensinamentos da Numismática item, como apreciáveis contribuições para a História, ou antes, para o progresso da Ciência em geral.

Foi por um tetradracma de Demétrio Poliorcete, da Macedônia, que se tornou possível a restauração, a determinação da significação e cronologia da tão mutilada como célebre Vitória de Samotrácia, que ilumina de beleza a grande escadaria do Museu do Louvre. Essa maravilhosa estátua sem cabeça, sem braços, sem as próprias asas completas, assente numa base de forma de triera, foi identificada por uma moeda! (Figura 1).

Estátua Victoria de Samotrácia
Figura 1: Victoria de Samotrácia

Tetradracma de Demétrio
Figura 2: Tetradracma de Demétrio

Realmente. Na moeda que a copiou, podemos vê-la dentro do galeão, ligeiramente inclinada, num dos braços a trombeta que faz ressoar vigorosamente, na outra segurando como troféu uma armadura de madeira alusiva ao vencido: Essa moeda nos diz que, essa magnífica escultura fora ofertada por Demétrio aos deuses de Samotrácia, em agradecimento da sua vitória naval em Chipre, que lhe permitiu a posse da Macedônia e da Tessália.

Por outras moedas, também foi revelada a existência de algumas célebres esculturas desaparecidas, como o Zeus Olímpico, de Fídias, o notável estatuário de Atenas, falecido em 432 a. C., ou a Afrodite, de Praxíteles, o célebre escultor grego que levou a sua arte a um tal grau de perfeição, que as suas estátuas pareciam animadas e que floresceu no ano 564 a. C., assim como se identificaram pelos velhos numismas outras esculturas, pois raro seria a grande obra de arte grega que não figurasse nas moedas.

A importância e o valor dos ensinamentos que as moedas revelam na história da escultura helênica é tal, que alguém com fundada razão já afirmou que as moedas constituem "a gramática da história da arte grega". E com razão, pois toda a evolução artística aí ficou registrada, desde as formas arcaicas, aos diversos períodos que a Arte grega atravessou, na sua ascensão, como no seu declínio.

Outro tanto sucede com a série romana, por cujos espécimes se podem reconstituir os fastos da Cidade Eterna, sendo notabilíssima a galeria de retratos que essas moedas nos apresentam.

O que apontamos e muito mais poderíamos dizer, já é suficiente para dar uma ideia da diversidade das contribuições que a Numismática presta constantemente à História, ou antes, à Ciência, de uma maneira geral.

Ambrosoli, o conhecido numismata italiano, assim define o que é Numismática:

"Numismática, é a ciência que tem por objeto o estudo da moeda de todos os povos e de todos os tempos, sob o aspecto histórico, artístico e iconográfico; por extensão compreende também o estudo das medalhas. Dela se depreende que não são da competência da numismática as questões estritamente econômicas relativas à fabricação da moeda, a sua composição química, as oscilações de peso e especialmente de seu valor com relação ao comércio e outras mais que pertencem ao domínio de outras disciplinas como a Tecnologia, a Metrologia, a Economia Política, etc., embora essas ciências mantenham estreitas relações com a numismática e à mesma possam fornecer esclarecimentos e delas por sua vez recebam luzes e subsídios".

Babelon, o ilustre numismata francês, tem uma concepção mais ampla da Numismática. Vejamos sua definição:

"Numismática, é o estudo das moedas sob todos os aspectos: econômico, social ou metrológico, bem como, sob os múltiplos pontos de vista das ciências históricas, mitológicas, iconográficas, epigráficas, da história da arte, geográficas, cronológicas, etc. Não é somente uma das bases fundamentais da arqueologia, mas também uma das fontes mais fecundas dos anais da evolução econômica das sociedades civilizadas".

Quer aceitemos a definição de Ambrosoli, quer admitamos o conceito mais amplo de Babelon, é inegável a importância da disciplina de que nos ocupamos como fonte auxiliar da história, sob os múltiplos aspectos: econômico, metrológico, cronológico, arqueológico, mitológico, artístico, social, etc.

Apreciemos ligeiramente as relações da Numismática com as várias ciências acima citadas.


Numismática e economia política

Basta dizer que antes de mais nada, a moeda é um fenômeno econômico, um instrumento de troca, uma medida de valor que facilita a circulação das riquezas, das utilidades criadas pela indústria humana. Nessas condições, faz parte da ciência econômica, em seu aspecto comum, em sua finalidade; fora da circulação, caída em desuso, a moeda assume um caráter histórico, entrando na esfera da numismática. Assim sendo, o numismata tem forçosamente de pedir esclarecimentos à ciência econômica para interpretar certas práticas encontradas no meio circulante universal.

Numismática e metrologia

Sendo a moeda uma medida de valor e os sistemas monetários organizados de acordo com uma seriação de peso, múltiplos e submúltiplos de um valor ou peso padrão, ou unidade métrica ou monetária, temos que as questões metrológicas interessam sobremodo ao numismata consciencioso que busca estudar satisfatóriamente as séries monetárias da antiguidade clássica, quase sempre sem indicações de valor e obedecendo aos diversos sistemas ponderais usados no mundo antigo, como o lídico, o pérsico, o eginético, o eubóico ou ático, o de Mileto, o de Focéia, o de Lesbos, e o de Corinto.

O aspecto de medida ou metrológico, é relembrado até na denominação das antigas moedas. O sido judaico antes de ser moeda, foi medida de peso. Entre os romanos no período republicano, tivemos o aes libral, pesando uma libra latina ou 273 grs.

Numismática e história política e social

São inúmeras as relações com a Numismática, bastando recordar que a classificação das moedas, é feita de acordo com a sucessão dos períodos governamentais, dos reinados e dinastias, o que demanda conhecimentos minuciosos sobre a ordem em que os governos se sucedem.

Por outro lado, vemos que os reversos das moedas comemoram feitos e acontecimentos nacionais, constituindo as peças monetárias verdadeiros monumentos imperecíveis para a documentação de uma época, uma fase memorável da vida política dos antigos povos. É o que se executa nas medalhas comemorativas contemporâneas, que perpetuam no bronze os feitos gloriosos das sociedades humanas, em seus variados aspectos: políticos, guerreiros, cien-tíficos, artísticos, religiosos, filantrópicos, desportivos, etc. As vicissitudes políticas refletem-se na moedagem, como vemos nas moedas obsidionais ou de assédio, nas moedas de emergência ou de necessidade. Os períodos de florescimento ou de crise econômica, manifestam-se claramente na abundância ou escassez do numerário e no valor intrínseco das ligas metálicas empregadas nas espécies circulantes.

Numismática e história artística

É tão importante este aspecto, que é suficiente dizer-vos que as moedas gregas são divididas ou classificadas pelo seu valor artístico, de acordo com o desenvolvimento das artes na Grécia. Dividimo-la nos quatro períodos:

  • Período arcaico;
  • Período de transição;
  • Período do máximo esplendor artístico;
  • Período da decadência.

Esta seriação é feita assim, na impossibilidade de se obter um sistema rigorosamente cronológico.

Com Vittorio Pisano, mais conhecido por Pisanelo, no período do Renascimento, surge o aspecto artístico com a cunhagem da medalha icônica e a conseqüente renovação da gravura monetária.

Numismática e geografia

São imprescindíveis os conhecimentos da geografia antiga, para a exata distribuição das séries monetárias do velho mundo greco-romano. Como distribuir a moedagem antiga conhecida pela denominação de — série grega — que compreende as moedas de 1400 povos e mais de 600 reinantes, sem que se conheça as divisões da geografia política do mundo antigo?

Numismática e a cronologia

Já abordamos este assunto quando falamos nas seriações das dinastias e reinantes. Todavia, lembraremos ainda que há diversidade nos sistemas de contar o tempo e daí a necessidade de se conhecerem as épocas ou eras dos diversos povos cujas moedas só muito excepcionalmente traziam datas, havendo por isso necessidade de se estabelecerem sincronismos para a determinação do momento exato em que se deram determinados fatos, de que resultou a emissão de certas moedas; de se conhecerem as correspondências entre os diversos sistemas cronológicos, bem como realizarem-se as necessárias conversões de datas de um sistema para outro .

Em alguns casos, há indicações indiretas como entre os romanos que davam na moedagem de cada Imperador o número do Consulado e da tribunicia potestate, ou como nas peças do Egito sob a dominação romana onde figurava o ano do governo de cada imperante expresso em letras do •alfabeto grego, precedidas de um sinal em forma de L.

Exemplo interessante, temos nas peças muçulmanas, onde a Égira gravada nas moedas marroquinas, iludem os leigos que julgam ter em mãos exemplares do século XIII, quando na realidade são cunhagens modernas.

Numismática e arqueologia

A Numismática é uma das bases fundamentais da Arqueologia, sendo frequentes os encontros de antigas moedas nas escavações arqueológicas, as quais pelos seus tipos e legendas, muito têm elucidado os estudiosos do viver dos antigos povos cujo numerário, como já frisamos, encerra tantos ensinamentos em relação aos variados aspectos das sociedades antigas.

A importância dos tesouros, que na maior parte das vezes o são apenas para a ciência, ou poderiam ser se houvesse deles direto e pormenorizado conhecimento, porque de ordinário são aglomerados de moedas de cobre e mais escassamente de prata, rareando as de ouro, cujo destino é serem repartidos pelos seus achadores, sem que o numismata tenha deles conhecimento, só no século passado foi posta em evidência pelos eruditos numismatólogos Borghesi e sobretudo Cavedoni, no seu Ragguaglio Storico Archeologico de Precipui Ripostigli Antichi di Medaglie Consolari e di Familiglie Romane d'Argento, impresso em Módena no ano de 1854.

Nesta obra, Cavedoni, estudando uma série de grandes achadores de moedas da República Romana e seriando-as por tipos, conseguiu determinar, engenhosamente, pelo uso que as moedas de determinado tipo apresentavam em relação às outras soterradas em estado novo, o grau de maior ou menor antiguidade dessas moedas, tomando por base o exame comparativo do "gasto" delas.

Esse foi o ponto inicial para a classificação cronológica dessas moedas, cuja dificuldade de as seriar no tempo, levou à disposição arbitrária, inexpressiva e anticientífica de as agrupar alfabeticamente, segundo as "famílias" a que se reportavam; e tanto essa dificuldade de determinação cronológica oferece grande embaraço aos numismatas, que ainda hoje se mantém na generalidade a classificação desses numismas segundo o sistema de agrupar os espécimes pelo nome gentílico que de ordinário ali figura.

Um exemplo sugestivo de contribuição histórica notável dada pelo estudo dos achados em França, foi o haver-se delineado a rota dos bárbaros pelos sucessivos "achados monetários" de tesouros desse tempo, que foram soterrados à aproximação dos invasores e que presumivelmente pela morte dos seus possuidores caíram no esquecimento, dormindo longos séculos, até que as modernas investigações e o acaso boa parte das vezes, novamente trouxeram à luz do dia esses antigos pecúlios.

Modernamente, tanto cresceu e foi reconhecido o valor que os achados monetários têm para a ciência, que é com o maior agrado que as Revistas Numismáticas acolhem as suas notícias e até os Congressos Internacionais de História se ocupam deles com o interesse que à Ciência merecem todas as fontes de documentação histórica.

Numismática e mitologia

É a explicação da Fábula, isto é, da antiga religião dos gregos e dos romanos, ou a história suposta das divindades do paganismo. Com a mitologia, a numismática está intimamente ligada, pois, na moedagem antiga, principalmente a grega nos seus três primeiros períodos — o arcaico, o de transição e o de maior esplendor — os tipos são sempre a representação de uma divindade do Olimpo. Toda a mitologia se reconstrói com as moedas. Só nas de Creta, nós poderemos examinar o nascimento de Zeus, o lendário Minos, o vencedor do Minotauro; nas da Arcádia, temos uma cena da vida de Ulisses; nas de Siracusa, a ninfa dos gravadores monetários (Ortígia); nas de Argólida, a deusa Hera; nas da Paflagônia, o culto da serpente; nas da Sicília, os deuses fluviais; nas de Anatólia, os deuses lunares; nas da Síria, as perseguições aos judeus; nas da Frígia, a fusão da tradição local com a judaica, de que nos dá uma perfeita imagem uma moeda cunhada em Apameia, representando Noé ao sair da Arca.

Se passarmos a Roma, teremos nas moedas da República as figuras ou atributos das divindades, Apolo ou o seu loureiro, Vênus ou a sua murta, Júpiter, Marte, Diana, as divindades tutelares doa cavaleiros, marinheiros e comerciantes; nas do Império, poder-se-á surpreender a evolução do ideal religioso e a revolução moral que se ia operando, desde o renovamento do culto de Hércules no tempo de Cômodo, do culto de Tanit no tempo de Severo ao culto do Sol com Constantino II e ao triunfo do Cristianismo com Constantino Magno.

Essas divindades aí figuram não só como protetoras de cada povo ou de cidades autônomas, mas também significando que sob o seu testemunho foram lavradas aquelas moedas, o que constituía uma garantia da sua legitimidade, da exatidão de seu peso e de seu título, dado o respeito tributado pelas populações aos deuses do paganismo.

Numismática e a iconografia

Com a ciência das imagens produzidas pela pintura, escultura e outras artes plásticas, já implicitamente apontamos as relações com a numismática quando tratamos do aspecto artístico das moedas e nos referimos à medalha icônica criada por Pisanelo, na época do Renascimento. É inestimável a série de retratos conservados pelas espécies monetárias, bastando dizer que, somente a série romana, nos transmitiu os traços fisionômicos de 150 imperadores e algumas de suas consortes e filhas.

A medalhística iniciada por Vittorio Pisano (Pisanelo) em 1438, veio ainda a dar mais importância a esta face da ciência das moedas e das medalhas, culminando no século seguinte com o retrato feminino, na magnífica galeria das belas imortalizadas por Pastorino de Siena.

Numismática e a epigrafia

A ciência das inscrições, está intimamente ligada à Numismática, sendo a epigrafia monetária um dos seus capítulos mais interessantes. As epígrafes ou legendas inscritas nas moedas, são de grande importância para a sua classificação.

Uma moeda "anepígrafe ou muda" ou ainda uma "moeda apagada" é muitas vezes inclassificável. As inscrições das diversas séries numismáticas, são variadíssimas e em línguas mui diversas, devendo o numismata saber interpretá-las para a sua perfeita descrição e classificação. Assim, encontram-se inscrições gregas, fenícias, púnicas, árabes, hebraicas, celtibéricas, etruscas, úmbrias, latinas, etc., o que dá lugar a uma série de especializações dentro não só da epigrafia, como da numismática.

Numismática e a heráldica

É a ciência do brazão. Desde a sua aparição, no fim do século XII, até ao limiar dos tempos modernos, esta.ciência foi utilizada pelos povos Civilizados da Europa para fixar em pergaminho, em metal ou em pedra os acontecimentos de ordem militar ou política, cuja lembrança quiseram perpetuar, quer fossem feitos particulares, quer acontecimentos coletivos.

E muitas vezes pelo estudo das Armas que figuram nas moedas, consegue o numismata classificá-las, principalmente quando elas não trazem legendas.

Divisões da numismática

Para dar uma divisão da numismática, utilizaremos a classificação extraída do livro "Cartilha da Numismática Portuguesa" (pág. 189. Lisboa, MCMXLVI) do ilustre numismata português Pedro Batalha Reis.

Ali ele divide a numismática em cinco grandes divisões, segundo o conceito moderno:

  1. Oriental
  2. Clássica
  3. Medieval
  4. Moderna
  5. Contemporânea

Esta divisão, é a mesma adotada pela História Universal, para marcar suas épocas fundamentais.

Se na História Universal, toma-se como início dos tempos modernos a Revolução Francesa de 1789, na Numismática, o que caracteriza esse último período, é a adoção da máquina na cunhagem das moedas, substituindo o antigo sistema do martelo. Essa data varia, entretanto, de país para país, segundo foi essa substituição adotada. Na França, foi em 1645; na Inglaterra, em 1651 e em Portugal, em 1678. Estas são as datas da aprovação definitiva das máquinas de amoedar.

1. Numismática oriental

É o estudo monetário de todos os povos da Antiguidade, que não sofreram a influência direta da civilização grega.

Nesta divisão, estudamos as moedas muçulmanas compreendidas nas extensas regiões dominadas então pelos islamitas na África, Ásia e até na Europa. As moedas da Pérsia, dos inúmeros reinos da Índia (Nepal, Assan, Rangpur, Kurch-Bear, Tiperah, Manipure, Arrakan, Misore, etc., assim como do vastíssimo Celeste Império (China) compreendendo a Mongólia, Tibet, Tartária até ao Japão, Coréia, Anaan, Sião, Java, Sumatra, etc.

2. Numismática clássica

Neste grupo, entram as moedas da civilização greco-romana, desde a sua origem no VII século a. C., ao fim do Império Romano do Ocidente, em 476, como teremos ocasião de verificar, ao estudar a sua numismática.

3. Numismática medieval

Estuda as moedas do período compreendido entre 476, ou seja, a queda do Império Romano do Ocidente, ao século XVII, de acordo com a data em que nos vários países foi adotada definitivamente a máquina monetária, os balancês, em substituição ao sistema de martelo.

Como exemplares, estão compreendidas as moedas de todos os povos que resultaram do desmembramento do Império do Ocidente.

Uma das características do moedário da. Idade Média, é a organização social do feudalismo, que deu azo aos inúmeros suzeranos e senhores feudais de se arrogarem o direito de bater moeda, de que resultou enorme diversidade de séries monetárias, que pouco a pouco foram desaparecendo com o predomínio real.

A numismática da Idade Média, é caracterizada pelo sistema do martelo, tendo seu termo, quando em meado do século XVII, cerca de 1650, se adotaram as máquinas e os balancês para a cunhagem das moedas.

4. Numismática moderna

Tem como característica fundamental, a regularidade mecânica das moedas, desde que a sua cunhagem no século XVII, passou a dar as espécies monetárias uma uniformidade, que os exemplares fabricados manualmente não apresentavam.

5. Numismática contemporânea

O que caracteriza a regularidade mecânica da Numismática Moderna, é a nova era da remodelação dos sistemas ponderais verificado em quase todo o mundo, a partir da primeira metade do século XIX, quando se adotou o sistema métrico decimal.

Coincidindo com a adoção desse sistema, tivemos também a inovação das máquinas a vapor, quando se introduziram igualmente as prensas-monetárias movidas a vapor.

Considerações finais

Bem, por ora é isso, fique atento ao blog do Collectgram para as próximas aulas sobre Numismática.

Próxima aula: Origem da Moeda