No meio numismático, muitas pessoas confundem o numismata com o colecionador, e pior ainda; confundem o ajuntador de moedas com o numismata.

Essa é uma questão frequente e a definição do que é ser numismata, o que faz o numismata e como o numismata interage com a numismática é o tema desse artigo.
Fique conosco até o final e entenderá de vez o que é o numismata.

Numismata: significado

Figura mítica do colecionismo, o numismata é definido pelo dicionário Michaelis como a "pessoa especializada ou estudiosa da numismática" e, segundo o dicionário, pode ser chamado de numismático ou monetário.

Numismata é uma palavra que tem raiz etimológica no francês numismate, e o dicionário complementa que é aquele "que coleciona moedas ou medalhas antigas".

É compreensível a falta de clareza e definição generalista dada pelo dicionário ao numismata, uma vez que não há consenso do que realmente é o numismata. Mas vamos buscar aqui chegar em algo mais próximo da realidade.

Ao nosso ver, a melhor definição para o numismata é:

O numismata é uma pessoa curiosa, que tem a sensibilidade de reconhecer e transmitir conhecimento acerca das moedas, tratando-as como representação viva da história de um povo.

Os numismatas não se detém apenas nos detalhes explícitos no metal, mas empreendem esforços em estudos e pesquisas que os levam a compreender, além dos detalhes técnicos, os contextos históricos e as implicações sociais que transformam o status de moedas, de apenas metal cunhado e meio de pagamento, em raridades inestimáveis.

É por essas razões que dizemos que a numismática é considerada uma ciência, a de estudo das moedas, porque há um cientista que a conduz; o numismata;

O que define um numismata?

O que define um verdadeiro numismata é a curiosidade e a paixão pela história. Aqui no Collectgram, publicamos semanalmente artigos em nosso blog, alguns superficiais e outros bem densos e cheios de detalhes históricos.

É quando fazemos a divulgação dos artigos que percebemos quem é o numismata ou quem está no caminho para tornar-se um. Os numismatas normalmente nos enviam mensagens agradecendo pelo conteúdo mais denso, nos corrige em algumas informações e ficam curiosos para saber quando será o próximo artigo.

Infelizmente vemos também várias pessoas que se intitulam "numismatas" e que ficam loucos para saber quando sairá o próximo artigo com os valores da moeda X ou Y do real.

Não que desmereçamos quem as estuda, mas essas moedas são recentes, a história das mesmas é a que lemos nos jornais da banca da esquina ou a que passou no jornal de ontem na TV.

O numismata quer mais, ele vai atrás de cada detalhe da moeda; o valor numismático para ele não é o que está nos catálogos-preçários, é o que a moeda representa ou representou para a história do local onde circulou.

Fases de uma pessoa na numismática

Como tudo na vida, o numismata passa por fazes em sua trajetória na numismática. Todos já passamos ou estamos passando por uma dessas fases e entender onde você está na numismática significa muito para seu futuro.

Vamos conhecer agora cada fase que o numismata passa, em qual delas você se identifica? Em qual fase quer ficar?

Faço essas duas perguntas porque há quem quer ficar na primeira fase, ali está ótimo, é tranquilo, sem tantas responsabilidades e cobranças, sem muitos estudos, é bonito, agradável.

Outros querem alcançar o topo, serem os melhores numismatas; esses precisam estar dispostos a trilhar um árduo caminho de estudo e até domar a sua personalidade. Vamos ao que interessa:

O ajuntador de moedas: fase 1

Essa é a primeira fase que uma pessoa passa na numismática, vamos entender como funciona a cabeça dos ajuntadores de moedas, faça sua auto análise.

Ajuntadores como identificar?

É aquela pessoa que encontrou alguma moeda, achou interessante e guardou. Ou aqueles que durante uma faxina encontraram moedas antigas, acharam bonitas e guardaram.

Também pode ser categorizado como ajuntador de moedas aquela pessoa que simplesmente quer guardar as moedas que eram de um avô ou parente próximo, normalmente porque há algum fator emocional envolvido na posse.

Ajuntadores de moedas também são os que viram alguma moeda diferente no troco, achou bonitinha e começou a guardá-las no vidro de maionese que sobrou do almoço de domingo passado.

Como ajuntadores cuidam de suas moedas?

Os ajuntadores de moedas não tem tanto cuidado com suas moedas, eles as guardam em potes ou caixas, tudo junto.

Quando querem vê-las, esparramam-nas pela mesa e sem nenhum cuidado pegam uma a uma, veem e jogam novamente no monte de moedas, ajuntando tudo e jogando novamente no mesmo pote ou caixa.

Ajuntadores e a síndrome do tesouro

Pior que o descuido com as moedas é o fato que, na maioria das vezes, os ajuntadores de moedas tem um estágio avançado do que chamo de a "síndrome do tesouro".

Eles tem moedas comuns e de baixo interesse numismático e acham que são possuidores de um tesouro que ninguém tem, quando querem vendê-las ou trocá-las, recusam qualquer oferta que esteja abaixo do seu achismo de valor, afinal, é "um tesouro que eles tem".

Limpeza de moedas para o ajuntador

Não é raro vermos ajuntadores de moedas executando procedimentos de limpeza inapropriados e desnecessários em suas peças, utilizado-se de instrumentos e elementos que danificam para sempre suas moedas.

É bombril pra cá, vinagre pra lá, limão, bicarbonato, Brasso na flanela, enfim, você entendeu do que estou falando.

O foco do ajuntador de moedas

Diante disso tudo, podemos dizer que o foco principal do ajuntador de moedas é ter a maior quantidade possível de peças, independente do estado de conservação e grau de raridade.

Ou então, o foco do ajuntador é conseguir algum dinheiro com moedas que ainda estão em circulação e que ouviu na televisão em matérias sensacionalistas onde outros ajuntadores falaram que "essas moedas podem valer um bom dinheiro".

O colecionador de moedas: fase 2

Depois do ajuntador de moedas, o colecionador de moedas é o próximo passo. Será que você já avançou para a segunda fase?

Colecionadores, como identificar?

Normalmente a virada de ajuntador para colecionador acontece quando o ajuntador começa a conhecer algumas verdades numismáticas e obtém conhecimento através de literatura especializada em numismática, de conversas com outros colecionadores ou através do blog do Collectgram ;)

O colecionador começa a se posicionar de forma diferente, já adquire acessórios numismáticos para melhor guardar suas moedas, começa a entender alguns termos da numismática, diferencia peças comuns de peças escassas e essas últimas de peças raras.

Como colecionadores cuidam de suas moedas?

O colecionador de moedas já é um pouco mais desapegado do sentimento de ajuntamento, começa a ser impulsionado pelo sentimento de querer "ter todas as moedas" de determinado país ou período, porque ele já entendeu que há períodos monetários e que pode organizar uma coleção com esses detalhes.

Ele organiza sua coleção por meio de pastas com folhas compartimentalizadas e dependendo do estado de conservação da moeda, coloca-a em envelopes, holders ou cápsulas.

Ele cuida bem de suas moedas pois sabe que, além de estar preservando um pedaço da história, a coleção é um investimento para o futuro.

Colecionadores e a síndrome do tesouro

A "síndrome do tesouro" diminui bastante nessa fase. Os colecionadores entendem que ao longo dos anos, muitas pessoas guardaram moedas ou não as trocaram nas mudanças monetárias e vez ou outra elas são descobertas aqui e ali, e que isso é algo relativamente comum.

Seu apego por determinadas moedas repetidas diminui bastante, nessa fase o foco começa ser qualidade e não quantidade. Então, moeda que ele achou na faxina já não é tão importante assim e nem está tão bonita, pode ser substituída por uma moeda em melhor estado de conservação.

Já começa a fazer algumas negociações de compras e trocas, as vezes abrindo mão de uma peça única de sua coleção para adquirir uma peça mais escassa que apareceu em uma oportunidade.

O colecionador sabe que será mais fácil encontrar uma substituta para aquela que está abrindo mão e conseguimos ver algumas moedas interessantes em sua coleção.

Limpeza de moedas o colecionador

O colecionador pensa duas vezes antes de fazer qualquer tipo de limpeza de moeda, já sabe o que é uma pátina e que ela demora anos e na maioria das vezes décadas para se formar na superfície da moeda e limpezas facilmente podem removê-las.

Mas mesmo assim, vez ou outra ele arrisca uma técnica ou produto e fica super chateado quando não alcança o objetivo e percebe que estragou sua moeda.

O foco do colecionador de moedas

Como já falamos, o colecionador estuda mais, interage mais com outros colecionadores, é mais aberto a negociações, mas uma coisa ainda é claramente percebida: "ele quer todas as moedas", sua coleção ainda tem um foco generalista.

O colecionador tem um catálogo de moedas onde consulta informações como peso, diâmetro, material, emissões e outros detalhes das moedas (ser você não tem um catálogo, conheça o nosso Catálogo de Moedas Gratuito).

Além do catálogo, ele sempre consulta um preçário para ter uma noção de valor e também entende que o valor de preçário é um norte e o que manda é a demanda do mercado, sabe que o que prevalece é a boa e velha negociação.

Transição de colecionador para numismata

Quando um colecionador começa a dar um norte para a sua coleção, quando escolhe, por exemplo, colecionar "só moedas de cobre", "só moedas de prata" ou "só moedas de um determinado país", percebemos que ele está em um período de transição, a caminho de tornar-se um numismata.

Não há nada de errado ficar nessa fase de colecionador durante vários anos, a numismática nessa fase é empolgante; a cada encontro de colecionadores ele quer levar todas moedas para casa, nas visitas em casas de pessoas mais idosas ele quer saber histórias do dinheiro, pergunta se não tem moedas antigas guardadas com pensamento de "vai que há um 960 réis guardado em algum lugar...".

O numismata

Essa é talvez seja a fase mais interessante e solitária da numismática e vou explicar o porquê. Será que você já é um numismata?

O numismata, como identificar?

Essa fase é interessante, porque é quando o colecionador, agora numismata, entende de vez que há um universo por detrás de cada moeda. Um universo de fatos históricos, de arte, de transformações de sociedade e de evolução de pensamento.

Nessa fase, o numismata conhece moedas de vários países, os métodos de cunhagem, sabe diferenciar a maioria dos materiais bem como as suas composições, sabe detalhar particularidades de emissões raras, conta histórias de várias moedas e tem na memória as datas de moedas escassas e raras.

Como o numismata cuida de sua coleção

Em sua coleção, o numismata tem raros exemplares e os conhece detalhadamente. Sua coleção é bem documentada e para ele é importante a linhagem ou pedigree da moeda porque ele sabe que ter registro de quem eram seus donos anteriores agrega valor na peça em uma possível venda.

O cuidado com esse pedigree é tão grande que ele guarda os envelopes antigos que já acomodou a moeda, com as anotações manuais dos antigos donos, porque ali podem ser encontradas informações que foram fruto de anos de estudo daquela peça.

Na coleção de um verdadeiro numismata não se encontram moedas guardadas amontoadas em um mesmo recipiente, nem moedas em contato direto com as folhas de plástico, ele sabe que essas práticas danificam as moedas.

Não é raro ver belos medalheiros e moedas cuidadosamente guardadas em holders auto adesivos, cápsulas e slabs criados especificamente para moedas raras. Quando estão em envelopes, percebe-se que de tempos em tempos os mesmos são substituídos para que os ácidos do papel não danifiquem as moedas.

Na biblioteca do numismata tem desde livros de história, economia, arqueologia e numismática a livros de arte, biografias de gravadores, estudos raros e boletins das sociedades e clubes numismáticos que ele participa.

Limpeza de moedas para o numismata

Na maioria dos casos, o numismata é totalmente contra limpeza de moedas. Ele sabe que, além de danificar moeda, uma limpeza remove traços da história da moeda.

O numismata sabe que impregnado na pátina, podem haver, por exemplo, pólen de plantas já extintas e elementos que, através de estudo laboratorial, podem determinar a região e idade de uma moeda muito antiga.

No caso de moedas encontradas em escavações arqueológicas, o numismata chama a limpeza de processo de higienização e deixa esse trabalho na responsabilidade de empresas ou profissionais especializados.

O numismata sabe de imediato que uma moeda foi limpa ou não e, na maioria das vezes, só pelo aspecto da peça ele saberá dizer qual foi o procedimento utilizado.

O foco do numismata

O numismata conhece várias áreas da numismática, mas reconhece que a ciência é muito abrangente e escolhe uma área específica para focar seus estudos.

Há numismatas, por exemplo, que focam em moedas de um determinado período de algum país ou em um determinado tipo de moedas, por exemplo, os recunhos de 960 réis.

O numismata vai estudar esse assunto até esgotá-lo e terá exemplares de moedas que bem representem esse assunto. Buscará ao máximo toda literatura que encontrar sobre isso.

O numismata e seu conhecimento

Quando alguma moeda do país onde mora ou do tipo de moeda que ele estuda ou coleciona chega nas suas mãos, o numismata não precisa consultar catálogos ou preçários para saber informações da mesma, porque ele já estudou bastante e sabe falar sobre a moeda.

É somente quando tem em suas mãos alguma moeda de outro local, uma moeda diferente ou quando quer precisar alguma informação que o numismata consultará catálogos, mas na grande maioria das vezes, ele terá pelo menos uma noção do que se trata, porque sabe reconhecer detalhes da iconografia de cada país para um reconhecimento instantâneo.

Exemplo: não é preciso consultar um catálogo para saber que o menorá é um dos símbolos usados nas moedas de Israel, que a harpa celta é um símbolo das moedas da Irlanda e que o leão coroado segurando um estandarte de cruz é um símbolo frequente nas moedas da Etiópia.

Não é raro, pelos anos de experiência, o numismata pegar uma moeda que aparentemente é comum e apontar nela detalhes que o colecionador não conseguiu identificar.

Uma forma que o numismata usa para transmitir seu conhecimento é através da publicação de artigos, livros e catálogos numismáticos.

Mas vale um aviso: não considere como numismata todo e qualquer autor de livro ou catálogo numismático, por vezes vemos literaturas que são escritas por grandes colecionadores, mas que na verdade não são numismatas.

A solidão do numismata

Quando eu disse que essa é a fase mais solitária, é porque o verdadeiro estudo numismático é algo de prática e absorção individual, em raras exceções há grupos de estudos ou reuniões de pessoas para tratar sobre o assunto.

Nesse nível, há também a questão do foco extremo em um tipo de coleção, então, quando um numismata vai a algum encontro de colecionadores ou feira, seu foco de busca por peças é direcionado, ele quer a peça X, todas as demais não lhe interessam tanto.

Por essa razão, o numismata começa a ser incompreendido, principalmente por colecionadores e é sobre esse assunto que vamos falar no próximo tópico.

O numismata vs. o colecionador

É impossível não dizer que há uma certa rivalidade, incompreensão e preconceito mútuo entre numismatas e colecionadores, não adianta jogar esse assunto para debaixo do tapete.

De um lado, alguns numismatas acham que os colecionadores são pessoas superficiais, principalmente quando com seus conhecimentos rasos afirmam inverdades ou criam teorias para valorizar as peças de sua coleção.

Não é raro vermos numismatas rindo de comentários de colecionadores, principalmente com nomes que esses dão a certas "anomalias" de peças. Não colocarei aqui nomes dessas "raridades" para não constranger os criadores das mesmas.

De outro lado, alguns colecionadores acham que os numismatas são seres arrogantes, metidos e que se acham os donos do conhecimento, principalmente quando são advertidos ou corrigidos por esses numismatas.

Não é raro vemos colecionadores comentando que certo numismata é grosso ou que não considera o que diz o numismata X ou Y.

Fato é que essas barreiras precisam ser implodidas! De um lado, os colecionadores precisam ouvir mais e entender que as vezes o numismata se cansa de tantas atrocidades que são ditas no meio numismático e com isso suas respostas parecem ser arrogantes.

De outro lado, os numismatas precisam lembrar que um dia foram colecionadores, também tiveram suas dúvidas e no calor da emoção podem também ter afirmado coisas ou criado teorias que hoje sentiriam vergonha se ouvissem a si próprios.

É tudo uma questão de paciência e respeito. Se alcançarmos isso, a numismática crescerá bastante e a consciência também.

Quadro The Collector de Norman Rockwell

Utilizamos na capa desse artigo o recorte do quadro The Collector do artista Normam Rockwell, um pintor do século XX representante da tradicional pintura realista americana, considerado entre os seus admiradores como um dos maiores comunicadores visuais ao longo das últimas décadas.

A pintura em óleo sobre tela de 1970 foi um dos 80 desenhos entregues por Norman Rockwell à Franklin Mint, uma empresa fundada em 1964 para produzir medalhas, moedas de coleção, lingotes de ouro e outros diversos itens relacionados ao colecionismo.

Rockwell foi contratado pela Franklin Mint para produzir desenhos que seriam usados como motivos para confecção de suas moedas e medalhas, um projeto chamado pela empresa de Projeto 9.

Em 22 de maio de 2014, a empresa de leilões Christie's leilou o quadro, que na minha opinião é o que mais representa o cotidiano de um numismata apaixonado, sendo arrematado pelo valor de 965 mil dólares.

Veja abaixo o quadro completo:

O Colecionador, de Norman Rockwell (1970): quadro que mais representa o numismata

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