O estudo da origem da palavra moeda, as derivações do termo e o próprio conceito da moeda assuntos que a maioria dos colecionadores e numismatas desconhecem. Por vezes, questionados sobre a etimologia de moeda, acreditam que a palavra sempre existiu e gaguejam ao supor suas origens.

Pensando nisso, convido a todos à leitura deste precioso artigo do Professor Dr. Álvaro da Veiga Coimbra, que muito enriquecerá a base dos conhecimentos numismáticos.

Este artigo foi elaborado com as notas de aula do Curso de Numismática ministrado — como professor-visitante — pelo Dr. Álvaro da Veiga Coimbra, presidente da Sociedade Numismática Brasileira, na Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras da Universidade de São Paulo na década de 60.

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Moeda é uma peça de metal servindo o comércio como instrumento de troca e medida de valor, emitida pelo poder público e marcada com um cunho pertencente a um Estado soberano que lhe imprime um caráter legal.

A medalha, ao contrário, é uma peça de metal que pela forma muito se aproxima da moeda, mas destituída daquele caráter legal, tendo simplesmente fins comemorativos.

A designação moeda (do francês: monnaie, inglês: money, alemão: muenze) vem da palavra latina moneta, cuja origem é curiosa.

Junto ao templo de Juno, na antiga Roma, foi instalada a primeira oficina do estado para a cunhagem oficial da moeda de prata (269 a.C.). A esta deusa, que tinha a propriedade de advertir o povo romano em tempos difíceis, foi dado o sobrenome de moneta (lat. monere, que significa advertir).

Maquete do cume do Monte Capitolino: o maior templo é o de Templo de Júpiter Capitolino. Um dos demais é o Templo de Juno Moneta.

Juno Moneta, era então, a Deusa do Bom Conselho que avisava e protegia, a divindade de segurança que alertara por intermédio dos gansos a Mânlio, da chegada dos gauleses[12].

Depois da instalação da primeira fábrica de fazer moeda no templo de Juno e a mando do Senado Romano, o apelido moneta, desligado do nome da deusa, por abreviação, passou a designar as peças cunhadas no recinto do templo, uso que se tornou corrente no fim da República Romana.

Com a romanização da maior parte da Europa, a palavra moneta ficou adotada para significar dinheiro em todo o mundo romano de então.

Deste vocábulo latino moneta, atributo da divindade pagã, nasceu o termo moeda aplicada aos meios metálicos de troca, quando deles já há séculos os povos se serviram para as suas transações comerciais e cujo aperfeiçoamento de cunhos se deve ao grande povo grego da antiguidade.

O vocábulo moneta é encontrado com as variações próprias em várias línguas, como o anglo-saxão, velho alemão, escandinavo, russo, etc. e, em todas elas, parece derivar do antigo "man" que significa "coisa de preço".

Alguns etimologistas dão outro significado à palavra moeda, julgando-a um adjetivo derivado do púnico e correspondente a machanat ou ammachanat, palavra que se encontra nos tetradracmas cartagineses.

A palavra nomisma significa "coisa instituída em lei", sendo aplicada às moedas, pois estas eram reguladas por lei da qual recebiam seu valor, título e denominação.

A ciência numismática tirou o seu nome da raiz da palavra grega noummos, que significava uma peça de prata equivalente a meio quilo de bronze, matéria-prima muito usada numa época que ficou na História com a denominação de idade do bronze.

A palavra entrou com os colonizadores gregos na Itália do Sul (Magna Grécia) e aparece no grande mercado grego de Tarento, como moeda específica de prata que servia de base em todas as transações comerciais.

Os romanos, por ocasião das guerras com os samnitas e quando tratavam com Tarento acerca de uma convenção, conheceram esta palavra, adotando-a no seu idioma como designação geral para peças de dinheiro.

Serviram-se ainda os romanos além do numus e numisma, de pecunia, aurum, aes e moneta. Segundo Plínio, as moedas romanas em sua fase primitiva se derivou de pecus — gado — e por ela sabemos a maneira de comprar e vender à qual servia de base o número de animais e daí se ter derivado a palavra pecunia.

A palavra aurum era também empregada para exprimir a moeda em geral.

O termo aes significava cobre ou bronze, sendo empregado também para designar toda e qualquer espécie de moeda e a explicação é a seguinte:

Na Itália central e particularmente em Roma, no começo, a única moeda metálica que existia era o cobre ou bronze conhecido por aes e daí dizer-se aestimare (avaliar, dar um valor aos objetos).

Depois, embora já tivessem sido cunhados exemplares de prata e de ouro, conservaram a tradição de designar muitas vezes pela palavra aes, a moeda em geral, qualquer que fosse o metal, havendo disso inúmeros vestígios, por exemplo:

  • Aes alienum significava uma dívida;
  • Aes militare era uma expressão com a qual se indicava o soldo das tropas.

No fim do Império denominavam argentum, não só a moeda de prata, como também as moedas de outros metais, embora não tivesse sido a prata o primeiro metal cunhado por eles.

A moeda entre os gregos denominava-se chrision, chalkion e nomisma.

Argyrion vem de argyros, prata, e indicava a moeda feita nesta substância. Este termo servia também para significar as moedas em geral cunhadas em qualquer metal. Talvez se possa explicar esta denominação, por terem sido de prata as primeiras moedas lavradas pelos gregos.

O ouro só foi utilizado na cunhagem dos primeiros tempos, em pequena quantidade. Os helenos serviam-se algumas vezes da palavra chrysion (de Chrysos, ouro) no mesmo sentido em que empregavam a expressão kromata, isto é, significando bens, riqueza em geral, incluindo-se naturalmente o dinheiro.

Já Aristóteles, não obstante a sua época não muito distante dos primeiros tempos da própria moeda, compreende que os homens tinham criado com o dinheiro um poder misterioso, cuja expansão escapava ao seu controle e havia de transmutar-se de simples servidor do comércio em dominador comum.

A moeda tem sido objeto de inumeráveis livros, alguns dos quais escritos pelos maiores pensadores do mundo, o que não obsta seja assunto de controvérsias e divergências entre os economistas, pela falta de unanimidade no emprego da palavra moeda, como acabamos de mostrar.

O conceito da moeda foi fixado desde o IV século antes de Cristo, por Aristóteles, nesta expressão lapidar:

"mercadoria intermediária, que serve para facilitar as trocas".

Esta fórmula era perfeita para o tempo em que tudo podia ser moeda, desde o saco de areia aurífera até a escrava bonita.

Em nosso tempo, Garnier, deu-nos este conceito:

um valor real que o consenso geral dos homens escolheu como intermediário, para compra e venda e como denominador comum de todos os outros valores.

Segundo Garnier, só pode ser escolhida para moeda a mercadoria que reúna as seguintes condições:

  1. servir a todos os indivíduos sem distinção;
  2. em qualquer tempo;
  3. no mesmo grau.

Para isso, ela deve ser:

  1. incorruptível, para que não se desvalorize com o tempo;
  2. ser útil por si mesma, isto é, com valor próprio e independente, intrínseco;
  3. sumamente divisível para que possa ser distribuída em qualquer quantidade;
  4. homogênea em todas as suas partes;
  5. de fácil manejo para não suscitar dificuldades e despesas;
  6. existir em tal quantidade, que não seja muito nem pouca em relação à população do mundo;
  7. não estar sujeita a grandes e bruscas variações de valor, como os produtos agrícolas ou industriais;
  8. ser bastante maleável para que nela se possam gravar selos de autoridade oficial para garantia de todos.

Na realidade, tão notável tem sido o papel que a moeda desempenha na história da humanidade, que não devemos deixar de apontá-la nas suas mais características facetas.

A moeda, incorporando em si própria a possibilidade de aquisição daquilo que o homem possa materialmente desejar, havia de tornar-se forçosamente o centro da atenção de todos os povos, representando na vida de cada um uma função do maior relevo.

Como todas as coisas sujeitas ao conceito público, a moeda, na medida em que cada qual toma-a para si, tem sofrido os mais diversos e por vezes antagônicos juízos, que lhe tem conferido desde a divindade ao maior desprezo.

Já foi considerada sacra moneta, gozando privilégios da mais alta reputação de quem representava a dignidade suprema do país, como pater patria, pontifex maximus, Cesar, Augustus, etc., desempenhando os mais variados papéis na história da humanidade.

Historicamente a moeda reflete a verdadeira mentalidade de um povo e de uma época. Como documento conservador dos elementos que a constituem, a moeda é um documento original que nos coloca diretamente em presença daquilo que intimamente viveu no tempo de sua criação, devido ao seu poder de resistência ao tempo.

A moeda é ainda um mensageiro que ao correr o mundo, vai dando notícias da sua terra e tanto melhor o fará quanto houver sido cunhada com carinho e saber.

Ela mostrará o grau de prosperidade do seu país, revelado sob os mais variados aspectos:

  • a legalidade do toque, indicará os recursos econômicos de que dispõe;
  • as legendas anunciarão a forma de governo que ali existe;
  • os símbolos, a ocupação fundamental de seu povo e as suas ideologias;
  • a técnica do cunho mostrará a perfeição a que chegou sua indústria
  • e o aspecto artístico, revelará a cultura de seu povo.

As moedas sofrendo as vicissitudes dos seus possuidores e que o tempo implacavelmente acarreta às coisas, vão-se subvertendo no solo, para daí, volvidos anos, contados séculos e até milênios, aparecerem novamente aos olhos do homem num benefício para a ciência e como fonte inesgotável que são do enriquecimento do patrimônio histórico-monetário.

Encarando os "achados de velhas moedas" sob o ponto de vista científico, podemos dizer que eles revestem duas espécies de interesse: um constante, pelo fato de representarem um aumento material monetário; o outro facultativo, pelos ensinamentos que o seu encontro possa revelar.

Na biografia dos efigiados e seus símbolos, quanta evocação nos traz uma peça! É como o perpassar de séculos dentro de um. singelo círculo metálico.

Dracmas, asses, denários, aureus, morabitinos, dobras, dinheiros, reais, espadins, ceitis, tostões, cruzados, moedas gregas e fenícias, turdetanas, cartaginesas, ibero-romanas, suevas, visigóticas, árabes, cristãs e séries enormes que da Renascença vem até nossos dias.

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Nas cabeças dos deuses, de guerreiros e heróis, nas suas figuras mitológicas, em seus animais sagrados, a nave, as espigas de trigo, seus brasões, suas coroas e cruzes, que melhores lições de iconografia, simbologia e armaria poderemos desejar?

E os metais? Ouro, prata, cobre, bronze, bilhão, níquel... moedas de alma, de cobre e forro de prata; de ouro rijo e ouro branco, de prata doseada, espécies maciças, serrilhadas, cerceadas...

Na descrição das moedas poder-se-á, sem dúvida, escrever a História do Mundo.

Referências

[1] Mânlio Capitolino, Marcos. Cônsul romano em 392 a. C. Quando da tomada de Roma pelos gauleses em 390, defendeu com a maior energia o Capitólio. Em uma noite em que os invasores tentaram a escalada da fortaleza, os gansos consagrados a Juno, despertados pelo ruído, começaram a grasnar. Mânlio acudiu e repeliu os assaltantes, fato de que lhe proveio o sobrenome de Capitolino.